Aprender matemática, para muitas pessoas, foi uma experiência marcada pelo medo, pela cobrança e pela obrigação de decorar fórmulas, números e tabelas. A tabuada é talvez o maior símbolo desse processo. Quantas crianças não se lembram de professores pedindo que recitassem em voz alta:
“2 vezes 2 são 4, 2 vezes 3 são 6, 2 vezes 4 são 8…”?
Se errassem, vinham as repreensões; se acertassem, muitas vezes não compreendiam por que aquilo fazia sentido. O resultado? Uma aprendizagem baseada em memorização mecânica, que com o tempo se desfazia como fumaça, deixando lacunas que comprometiam o futuro escolar.
Mas a matemática não precisa — e não deve — ser uma experiência de dor. A tabuada, em especial, pode ser um instrumento de compreensão, de autonomia e até de criatividade.
Neste artigo vamos mergulhar em uma reflexão profunda sobre como transformar a tabuada de uma obrigação opressiva em um espaço de descoberta, onde o estudante entenda, questione e recrie o conhecimento.
🌱 Da Decoreba à Consciência Matemática
O ato de “decorar” é como empilhar tijolos sem cimento. No início, a parede parece sólida, mas basta um pequeno empurrão para ela ruir.
Quando a criança decora a tabuada sem compreender, ela não cria relações significativas entre os números.
👉 Exemplo:
Uma criança pode saber que 7 × 8 = 56, mas se perguntarmos por que isso é assim, talvez não consiga responder.
Aqui está a diferença entre armazenar dados e construir saber. O primeiro é frágil, o segundo é duradouro.
O desafio é despertar a consciência matemática: ajudar o estudante a enxergar a tabuada como um conjunto de padrões, relações e lógicas.
🔢 O Que é a Tabuada de Verdade?
A tabuada não é apenas uma lista de contas prontas. Ela é um mapa de relações numéricas. É o registro, em forma de tabela, de todas as multiplicações possíveis entre os números de 1 a 10 (ou mais, se quisermos).
Mas veja: multiplicar não é apenas repetir números mecanicamente. Multiplicar é ampliar.
- 3 × 4 significa: três grupos de quatro elementos.
- 4 × 3 significa: quatro grupos de três elementos.
Ambos os cálculos chegam ao mesmo resultado porque expressam a mesma ideia: juntar quantidades iguais para formar um todo maior.
🌍 A Matemática no Cotidiano
Antes de mergulharmos em métodos, precisamos lembrar que a tabuada não nasceu na escola.
Ela surgiu da vida prática: contar mercadorias, medir terrenos, organizar trocas.
📌 Exemplo:
Um agricultor que planta feijões em fileiras de 8 buracos, repetidas 7 vezes, precisa saber que terá 56 buracos no total.
A tabuada, portanto, não é uma invenção artificial: é uma forma de organizar o mundo. Quando mostramos isso às crianças, elas deixam de ver a matemática como “castigo” e passam a entendê-la como ferramenta de liberdade.
🧩 Estratégias para Ensinar com Compreensão
A seguir, algumas estratégias que ajudam a substituir a decoreba por aprendizagem significativa:
1. Visualização com Objetos
Use tampinhas, pedras, blocos de montar. Mostre que 6 × 4 é formar 6 grupos de 4 objetos.
A criança enxerga a multiplicação como um desenho no espaço.
2. Construção da Tabela Juntos
Em vez de entregar a tabuada pronta, construa com a turma.
Peça que preencham aos poucos, descobrindo os padrões.
Exemplo: perceber que a tabuada do 2 é sempre o dobro do número, e a do 5 termina em 0 ou 5.
3. Jogos e Desafios
Criar competições saudáveis, como bingo da tabuada, jogos de memória ou desafios coletivos.
O jogo faz a criança repetir, mas com prazer e consciência.
4. Exploração dos Padrões
Mostre que:
- Tabuada do 9 tem padrão decrescente/crescente (9, 18, 27…).
- Tabuada do 10 é apenas adicionar um zero.
- Tabuada do 4 é o dobro da do 2.
A criança percebe ordem no aparente caos.
5. Histórias e Situações do Cotidiano
“Se cada ônibus leva 45 pessoas e temos 6 ônibus, quantas pessoas no total?”
Assim, o estudante conecta números à vida real.
📊 Comparação: Decoreba x Compreensão
| Aspecto | Decoreba | Compreensão Conceitual |
|---|---|---|
| Método | Repetição mecânica | Construção ativa |
| Emoção | Ansiedade, medo de errar | Curiosidade, descoberta |
| Resultado | Esquecimento rápido | Retenção duradoura |
| Autonomia | Dependência de memórias frágeis | Capacidade de criar e resolver problemas |
| Relação com a matemática | Distância e rejeição | Aproximação e sentido |
🎨 Transformando a Tabuada em Experiência Criativa
Quando a criança entende que a tabuada é criação humana, ela pode se sentir parte dela.
Podemos propor que inventem músicas, poemas, desenhos ou histórias a partir da tabuada.
Exemplo:
- Escrever rimas: “Sete vezes oito, cinquenta e seis, mas se eu esquecer, descubro outra vez!”
- Criar mosaicos coloridos representando os resultados em formas geométricas.
Assim, a tabuada deixa de ser algo “imposto” e passa a ser algo produzido coletivamente.
🌟 O Papel do Educador
O educador não é um “ditador de regras”, mas um mediador.
Ensinar a tabuada não é mandar decorar, mas dialogar com os alunos, ouvir suas dificuldades, valorizar seus caminhos de raciocínio.
É nesse diálogo que a criança percebe que o erro não é um fracasso, mas um passo do aprendizado.
Cada erro revela uma hipótese que precisa ser revisada. E é nesse movimento que a matemática deixa de ser medo e se torna descoberta.
💡 Práticas Simples para Pais e Educadores
- Conversar sobre quantidades na vida diária (compras, receitas, jogos).
- Incentivar o uso de desenhos para representar multiplicações.
- Transformar erros em perguntas: “O que você pensou para chegar a essa resposta?”
- Celebrar os avanços, mesmo pequenos, para mostrar que aprender é processo.
- Dar espaço para que o aluno ensine o que aprendeu, reforçando sua autonomia.
🌈 Conclusão
A tabuada não precisa ser um trauma.
Ela pode ser um caminho de compreensão, liberdade e criatividade.
Quando deixamos de lado a decoreba e valorizamos a construção coletiva do saber, a matemática se transforma de um muro opressor em uma ponte para novas possibilidades.
Mais do que números, a tabuada ensina como pensar: organizar, relacionar, criar e compreender o mundo em que vivemos.
Se quisermos formar pessoas críticas, criativas e autônomas, precisamos começar justamente aí — na forma como ensinamos as bases da matemática.
✨ Reflexão Final
Aprender a tabuada não é apenas repetir números, mas aprender a pensar matematicamente.
E pensar matematicamente é, no fundo, aprender a pensar a vida.
