O difícil acesso à acessibilidade
Tribuna da Bahia
Salvador - BA, 20/06/2012
Passar 15 minutos para conseguir utilizar a entrada para deficientes físicos, se deparar com o despreparo dos cobradores, durante manuseio do elevador hidráulico de acesso e com as péssimas condições do equipamento tornou-se corriqueiro em Salvador.
da Redação
Atualmente, apenas 55% da frota dos ônibus coletivos da cidade (1346) possuem porta de acesso para pessoas com mobilidade reduzida, conforme informou a Secretaria Municipal de Transporte e Infraestrutura (Setin), o que resulta em reclamações de usuários por falta de inclusão social e constrangimentos durante o uso do equipamento.
Uma cena comum, flagrada por um passageiro de um ônibus retrata um cotidiano da cidade. Segundo a estudante de comunicação, Adriana Silva, 29 anos, uma idosa deficiente passou por más situações na hora de subir ao ônibus, que fazia linha Engenho Velho da Federação/Nazaré, já que a cobradora, que não soube manusear o elevador especial, situado na porta do meio do veículo
“Passamos cerca de 40 minutos aguardando a senhora subir ao ônibus. De início, a cobradora não soube descer o elevador hidráulico e pediu ajuda a outro cobrador, que seguia viagem como passageiro, mas ele acionou o motorista.
Após a mulher se acomodar em um dos assentos, a cobradora não conseguiu recolher o equipamento e ordenou que todos os passageiros entrassem em outro ônibus. O que gerou uma grande revolta”, contou a estudante.
Ainda de acordo com Adriana, durante as tentativas frustradas, os passageiros reclamaram sobre o despreparo dos rodoviários e o atraso da viagem, causando constrangimentos em quem necessitava utilizar o serviço. “Foi notória a vergonha da mulher pelo transtorno causado pelos cobradores. Após todos os passageiros descerem, eles ainda a carregaram e ela ficou cerca de 15 minutos esperando outro ônibus adaptado. Um absurdo!”, lamentou.
De acordo com a Setin, a quantidade de ônibus adaptados em Salvador é considerada uma das maiores em favor da inclusão social do país. Sobre a manutenção dos elevadores a secretaria afirmou que esta ocorre por conta das próprias empresas, porém garantiu que o “funcionamento dos equipamentos tem ocorrido dentro da normalidade”. Em relação ao treinamento dos rodoviários a pasta garante que o treinamento ocorre, através de “orientação das empresas de ônibus”.
Na tarde de ontem, a Tribuna tentou contato com duas empresas de ônibus, que circulam no Subúrbio Ferroviário e estações de transbordos, mas não obteve êxito. De acordo com a atendente, não havia disponibilidade de um funcionário “adequado a falar sobre esse assunto”.
Mobilidade ainda é desafio
Apesar de a legislação garantir a inserção de deficientes físicos na sociedade, eles ainda se sentem excluídos da comunidade onde vivem. Além dos poucos transportes adaptados, é preciso conviver com calçadas esburacadas, terminais de ônibus sem rampa e escadas rolantes quebradas, o que torna Salvador uma das mais despreparadas do país.
Segundo a presidente da Associação Baiana de Deficientes Físicos (Abadef), Luiza Câmera, a acessibilidade não está sendo tratada como deveria, pois os prejuízos não ficam limitados somente aos deficientes físicos e sim aos obesos, idosos e gestantes.
“A mobilidade está ligada ao direito de ir e vir. Salvador é uma cidade cruel e despreparada”, afirmou, ressaltando que um conjunto de fatores resulta os problemas encontrados pelos deficientes físicos, que utilizam ônibus.
“Além de termos poucos ônibus adaptados, os elevadores hidráulicos só vivem quebrados e os cobradores não recebem nenhum tipo de treinamento. O motorista, por sua vez, acha que a função dele se restringe a dirigir e a população ainda se rebela contra nós, como se estivéssemos atrasando a viagem”, completou.
De acordo com o último senso, realizado em 2010, 20% da população baiana apresenta algum tipo de deficiência física ou restrição de mobilização, o que representa cerca de 600 mil pessoas. Com mais de 4 mil associados, a Abadef também atua na fiscalização para que se cumpram as cotas de vagas no mercado de trabalho.
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