Um diálogo no escuro

Rede SACI
17/01/2008

Relato de uma visita ao Museu "Diálogo no Escuro"

Celso Cassalho

Acordei conforme a programação que fiz em meu celular no dia em que antecedia meu passeio com um grupo de amigos. Eram mais de 4h quando o despertador deu-me ordem para que estivesse em pé, era domingo e ele, o dia prometia muito. Estava feliz, pois no sábado havia eu concluído um grande sonho, adquirido meu novíssimo carro! Antes de me arrumar para a viagem esperada, desci as escadas de minha casa até a garagem e lá dei partida no veículo, feito este procedimento subi até a cozinha e tomei um rápido café e fui para as arrumações. Dois quartos de hora mais tarde já estava eu na estrada rumo a cidade paulistana, estava muito atento ao volante, pois caia uma garoa fina e a rodovia BR-381 estava bem molhada e escorregadia. Isso sem falar do pouco convívio com o automóvel, já que era novo e aquela era a primeira viagem que estava a fazer. Ainda em Atibaia, uma cidade próxima da grande metrópole foi que notei o dia começar a clarear. O céu estava muito cinzento, já que havia chovido muito pela noite a fora. Observei já em Mairiporã, mais especificamente o túnel da mata fria, o verde triste das árvores que não estavam animadas em saudarem o dia que vinha vagarosamente, tão vagarosa quanto a garoa leve que ainda persistia em continuar seu show.

Passado das 8h, eu já trafegava pelas movimentadas avenidas de São Paulo, por ser domingo e pelo dia que desfavorecia quase tudo, menos nosso ânimo em passear. O trânsito estava calmo e sem muito alvoroço. Desloquei-me da marginal de acesso para a região central da cidade paulistana, Meu desejo era encontrar um estacionamento para deixar meu carro e partir com os amigos numa vam extraordinariamente confortável para o destino tão esperado por todos. Após ter estacionado o veículo num local seguro e preciso, saí a pé rumo ao metrô onde havia marcado para nos encontrarmos e de lá sair para o interior. Três quadras antes de chegar ao metrô, tive a preciosa alegria em encontrar meus amigos José Vicente e Marilene, que estavam entrando numa confeitaria de grande estilo para tomarem café. Ao vê-los sem cerimônia fui convidado por eles que os fizessem companhia, algo que fiz sem pensar duas ou três vezes.

O ambiente é um local aconchegante, qualquer ser humano vivente neste planeta ficaria encantado com a decoração maravilhosa que a casa tinha para seus clientes. Um grandioso tapete bordado está estendido frente a uma porta média de vidro transparente. Já no interior da casa todas as mesas e cadeiras são de cores claras, um chocolate pendente para branco dá ao local um charme especial e um estilo bastante apetitoso mesmo! Ao entrar nos assentamos na terceira fila, a mesa muito ornamentada trazia toalhas floridas por desenhos pequenos, pela esquerda da mesa um lindo ramalhete de flores, pela direita mais para o centro da mesma copos e pratos foram colocados pela simpática moça que nos apresentou como Aline. O cardápio era extremamente atentador, ovos fritos, tapioca doce, pães de frios, pães doces de várias formas e estilos, pães de queijo do tipo mineiro, grosam, esfihas de vários sabores e recheios, bolos e tortas eram os pratos que haviam para nossa refeição dominical. Isso é, sem falar das frutas, sucos e demais guloseimas irresistíveis a qualquer estômago vazio!

O mais interessante e criativo desta casa é sua forma: as mesas e cadeiras estão num local, cada minuto este local gira levemente sem com que percebamos no sentido horário. Desta forma meia hora ou quarenta minutos que ali ficamos nossa mesa que ao entrarmos estava logo perto da porta já estava nos fundos do salão, e as mesas que posteriormente estavam nos fundos já estavam quase perto de onde sentamos; que coisa, não é? Que diferente isso, gente! Soube quando saíamos que esta confeitaria é muito freqüentada por empresários e artistas da grande São Paulo, um ambiente pra ninguém colocar defeitos! Ao sairmos, logo após o delicioso e fino café embarcamos em frente a casa num táxis de luxo e destinamos até a Praça da Árvore, local combinado para encontrarmos com todos os que iam viajar.

O apontador do tempo marcava 10h, já estávamos todos no interior do veículo de transporte e a moça dava partida. Nosso destino era Campinas, uma cidade do interior paulista, distante de São Paulo apenas 96 kilómetros. O veículo partiu, fomos pela rodovia dos Bandeirantes e a garoa persistia sem dar trégua ao domingo que se seguia. Dois quartos para as 12h faltavam quando cruzamos a linha de chegada, shopping D. Pedro I era o palco onde passaríamos durante mais de cinco horas. Fora do veículo, porém, ainda no estacionamento ficamos por alguns minutos a conversar e apreciar a linda paisagem que há na parte externa do grande shopping. Como a chuva havia aumentado fomos então para o interior do saguão.

Saímos caminhando por um espaçoso corredor, que pendia à direita do salão, pelas laterais deste já citado há pela esquerda um lindo jardim muito bem cuidado. Já pela direita lojas de vários seguimentos mercadológicos que se perdia em vista. Já no centro do saguão, descemos por uma escada rolante até o piso inferior a que estávamos. lá há uma linda cascata dágua que caí lá de cima e faz um barulho de cachoeira, isso é maravilhoso mesmo! A água desce em grande correnteza por entre pedras e plantas, é um cenário simplesmente impecável aos olhos humanos! Aproveitamos para deixar registrados nossos resplandecentes sorrisos de satisfação, posando para várias fotos ali retiradas. Após este momento, subimos a mesma escada rolante e fomos procurar um local onde pudéssemos almoçar. Alguns minutos mais tarde estava eu saboreando uma deliciosa picanha grelhada acompanhada por saladas e algumas outras delícias da culinária brasileira. Quando todos haviam terminado a refeição fomos presenteados por um cafezinho maravilhoso, um aroma indiscutível!

Saímos do restaurante e fomos até um elevador panorâmico, descemos até o primeiro piso do shopping e boa! estávamos onde havíamos esperado com ansiosidade estar ali loguinho!

Pois bem, você está numa sala clara e bem arejada, nela há várias mesas e cadeiras, esteja a vontade por favor! Aqui há café, água, refrigerante, peça algo, quero conversar um pouquinho só contigo, sendo assim peço tua atenção neste momento. Ótimo, muito bem, então enquanto você toma seu refrigerante geladinho irei explicar-te onde estamos e qual a finalidade deste ambiente que em alguns minutos estaremos a visitar.

Aqui funciona o Museu do diálogo no escuro, o primeiro espaço da América latina a ser aberto ao público, o que há lá dentro, bom, isso não saberia te informar, mas como você veio comigo é porque tem alguma curiosidade não é? E agora, quererá entrar comigo? Quererá? Que bom! fico feliz por tua companhia!

Então antes de entrarmos peço sua gentileza, venha até este balcão e guarde aqui tua bolsa e tudo que proporciona de alguma forma luz. Retire também só por um pouquinho teu celular e guarde junto com tua bolsa, pois lá dentro é proibido qualquer objeto que seja luminoso, pois a verdadeira emoção é caminhar pelo escuro, lá dentro só adianto pra ti, é escuro! muito escuro! você, assim como eu não verá nadinha mesmo com teus olhos!

Sim, agora poderemos entrar no interior do museu, não posso negar que meu coração está assim, batendo forte, acelerado! Sempre tive pavor da escuridão e agora eu aqui num lugar distante da luz, distante do ver com os olhos! Vamos? seja o que der e vier, vamos! O recepcionista nos leva até uma primeira sala sem qualquer móveis ou objetos, fecha a porta e gente! que escuridão! nossa! não vejo mais nadinha aqui! e agora? Entramos por um corredor não muito estreito, posso perceber que é exatamente um corredor pelo fato de ter tocado com minhas mãos por ambos os lados dele. Ai que medo! Que lugar escuro, gente!

Tenho em minha mão esquerda uma bengala, destas que os deficientes visuais usam nas ruas, com minha mão direita toco uma das laterais do corredor. Vou caminhando e chego ao fim deste primeiro corredor, aqui ele faz uma quina pra esquerda e vou seguindo, e você, poderá segurar em meu ombro, apesar de meu nervosismo e meu coração já quase na boca te ajudo! Opa, cheguei ao fim do corredor? Há uma porta aqui, vamos abri-la? Pronto, agora poderemos entrar neste ambiente, vamos ver o que há nele. Nossa! é grama isso aqui que estamos a pisar não é? Sinta bem? olha só, será que aqui é um jardim? Oba! é mesmo, é um gramado, e ali, toca com tua bengala, é água! tem logo após o gramado pedregulhos no chão, que lindo! ouça os pássaros a cantarem, ouça? Eles, os pássaros estão a voar por todo o ambiente a cantar, que lindo! agora sim, estou me sentindo em casa aqui! Olha aqui, veja o pau-brasil? Vem mais pra frente, há mais árvores, vem? este aqui é jacarandá não é? olha este, toca nele, é eucalípto! E agora, que é isso aqui? ah, descobri! é uma ponte, vamos passar por ela? Opa, ela está a tombar de um lado pra outro, ai, nossa, que medo! Assim vamos cair na água! Uuuufa, passamos, ainda bem! E este cercadinho aqui de madeira, que será é isso? Sim, é uma cascata! Que lindo mesmo isso aqui! Isso, estica teu braço, sinta a água correndo pela pedra? É um jardim maravilhoso! quantas plantas, quantos arbustos, flores e água!

E esta outra porta, vamos abri-la também? Pronto, poderá vir para o lado de cá, vamos ver o que há neste ambiente aqui. Bom, pelo barulho que estou a ouvir o local não parece ser difícil, é uma rua não é? Ouça os carros passando aqui pertinho de nós? Vem por aqui, vamos por esta calçada à direita, vamos caminhar por ela. Continuo com a bengala na mão esquerda e minha mão direita permaneço a tocar agora as paredes da cidade. Olha aqui, isso é uma porta de comércio, não é? E porque está fechada? Ah! Hoje é domingo e por certo o proprietário está a descansar. E aqui, sim, é uma porta comum de alumínio, destas que as pessoas entram não é? opa! minha bengala bateu em algo que fez barulho, deixa eu ver com meu tato! É um poste. E logo ali, é uma grade! então é aqui que mora dona Maria, pronto, tive uma idéia! chamá-lo-ei e assim ela nos arrumará uma lanterna, que acha? Pla pla pla! Dona Mariiiiiiiiaaaaaaa!... Pla pla pla, dona Mariaaaaaaaaa!

Um cachorro bravo vem latindo à nossa direção, não! este latido é de cachorro grande, estou fora, vamos ser atacado por ele, vem! Uuui, que trombada agora! que é isso aqui? Sim, é um orelhão, e porque colocaram isso na beira da parede? bem que já ouvi várias entrevistas onde deficientes visuais falavam do incômodo ter orelhões, caixas de correios e lixeiras nas paredes. Agora posso intender o quanto eles tinham razão em reclamar, que dor na cabeça! Que trombada feia! Aqui nesta porta de madeira é a casa da chiquinha, nem irei chamá-la pois soube que ela após almoçar vai tirar seu cochilo famoso, então o jeito é continuar no escuro total. Bom, aqui teremos de atravessar a rua, e agora? Os carros passam pra lá e pra cá, o barulho é tão insurdessedor, que faremos? Ouça este caminhão que vem, que barulho chato! credo, que coisa insuportável! Atravessar? Não, seremos atropelados na certa! Oba, achei aqui o semáforo, vou apertar aqui este botãozinho, vamos ver se os carros param! Pronto, parou, vem! corre, eles estão parados, vamos que dá!

Boa, já na outra calçada vamos em frente! Aqui é um calçadão, uuii! outra trombada, não pode ser! que dor na canela! que praga de moto, porque este infeliz foi estacioná-la logo sobre o calçadão? E aqui, que será é isso? Já noto que é logo um obstáculo também, pois está na beirada da parede com o calçadão, opa, é um caixa eletrônico, então, quem... quem... quem... quer dinheiro? Olha uma feira ali, vamos lá? Quantas frutas, ervas e legumes que delícia, vou aproveitar e fazer uma comprinha aqui, não seria uma boa?

Após as compras e sairmos da feira, passamos por uma lixeira na parede e em seguida saímos por uma porta, que será é este outro ambiente? Sim, é um rio e agora teremos a alegria em navegar por este leito por um barco espaçoso e rápido, antes porém, digo que está uma chuva fortíssima, vamos assim mesmo? Olha aqui por esta janela antes de irmos lá fora o quanto chove? Isso, estica tua mão por esta janela, viu só? Dá pra ir? então boa! como falava o mais soberano dos corintianos, Vicente Mateus, quem está na chuva é pra se queimar! Então que queime todos de uma vez só!

Por estas alturas já estamos em movimento sentados num aconchegante barco motorizado que vai sentido nordeste mais precisamente Minas Gerais pelo Rio Camanducaia. Estamos neste rio já há tempo, será que por aqui tem cachoeira? tem! que bom, assim poderemos parar então pra descansar um pouco por lá. Olha lá, ouça o barulho da água corrente, é a cachoeira! Vamos passar por baixo da cascata, vamos? Sim, se prepare, a água cai forte no leito do riacho, se prepare! Estamos próximos, segura firme no barco, uuuuuuuuuaaa! Estamos ensopados pela tremenda cascata forte que há aqui! Sim, olha outra ali na frente, dobra um pouquinho só pra esquerda, esta será boa, acelera mais, mais, segura aí, mais rápido, estamos próximos! Pisa mais no acelerador, mais, mais! é agora, iiiiiirruuuuuuuu!

Bom, após esta maravilhosa viagem aquática e já em Minas o jeito é estacionarmos aqui e sair do barco, é fim deste passeio. Já fora do mesmo entramos por uma porta e aqui é um ambiente tranqüilo, sereno. É uma sala espaçosa e toda carpetada e as paredes são igualmente forrada por um tecido macio, peço sua gentileza em se sentar no chão, ouviremos músicas e procure fechar teus olhos e pensar em tudo que há a teu redor. A música inicia e a sala calma continua no seu jeitinho maravilhoso em forma de ambiente. Isso, deixa esta energia boa da canção entrar em tua alma, em teu ser no mais profundo de si mesmo. Agora o som fica mais alto mas sem atrapalhar nada, tenta olhar a tua volta, sinta o chão da sala vibrar no ritmo compassado e sereno, veja como nosso mundo aqui mesmo num lugar completamente sem luz, escuro é maravilhoso e lindo!

Bom, agora que as várias músicas foram executadas vem pra cá, poderá levantar-se do chão, vem comigo! Vamos abrir esta outra porta, boa! aqui é o bar mais escuro do Brasil! por favor, esteja a vontade! O balconista está ali e irá nos atender! Opa, mas calma aí, isso tudo é a confiança que você adquiriu em simesmo, já quer logo um quebra gelo! Imagine depois então as cervejas! que doidura é esta! mas aqui não tem estas coisas, só um suquinho, um refrigerante, uma água, peça isso e venha cá, pois tem um lugarzinho mais pra esquerda e é exatamente aqui que são feitos o diálogo no escuro! Vamos bater aquele papo, afinal, brasileiros adoram papos de botecos!

O Museu do Diálogo no Escuro está aberto ao público de terças às sextas das 10h até a 19h, e aos sábados e domingos das 8h até às 22h no Shopping D. Pedro I. Os contatos para visitação neste espaço são:

(11) 3815-6633 ou (19) 3207-0608

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