Alma Nua entrevista o professor de informática José Antonio dos Santos Borges
Instituto Olhos da Alma Sã
07/11/2007
"Acho que posso ser chamado um dinossauro da informática hoje, com quase 35 anos de trabalho em quase todas as áreas de informática"
José Monteiro de Lima
Alma Nua - Por que a área de informática em sua vida? O que o levou a escolher este curso?
José Antonio dos Santos Borges - Na verdade, eu não pensava em fazer processamento de dados, que era o nome que se dava à Informática de hoje. Era tudo muito diferente no início dos anos 70, eram computadores enormes, que se conhecia como "cérebros eletrônicos". Minha mãe, um pouco antes do vestibular que fiz para Engenharia, me levou para conhecer o Centro de Processamento de Dados do Hospital dos Servidores do Estado, onde ela trabalhava, e eu achei aquele trabalho um saco. Entrei na Escola de Engenharia da UFRJ, e já no primeiro ano, apareceu a oportunidade de fazer um estágio no Núcleo de Computação Eletrônica da UFRJ, na área de operação de computadores. Eu entrei lá, fiz um curso, e me apaixonei. Não era o mais brilhante de meus colegas não. Eu era até um pouco medíocre, mas gostava de perder muito tempo estudando aquelas máquinas. Em pouco tempo eu era um dos que mais conhecia do computador IBM 1130, sendo até capaz de criar pequenos programas em assembler.
O resultado, entretanto não foi bom. Minha performance na escola de Engenharia caiu assustadoramente, pois eu só me dedicava à computação.
Algum tempo depois, acabei largando a Engenharia e mudando para Informática, que era um curso novo, e meu pai quase tendo um troço vendo o filho mudar para uma carreira completamente desconhecida.
Bem, acho que dei sorte: a área cresceu e eu cresci junto com ela. Acho que posso ser chamado um dinossauro da informática hoje, com quase 35 anos de trabalho em quase todas as áreas de informática. Tive muitas oportunidades e aproveitei quase todas elas. Posso dizer, com orgulho, que sou realmente um profissional com muita vivência.
Alma Nua - Como você vê a área da informática no Brasil hoje? Há quem diga que ainda dependemos muito de tecnologia exterior.
Antonio Borges - Sempre dependemos. Na verdade houve um período mágico, o da reserva de mercado da informática, durante os anos 80, em que a computação brasileira deu um salto incrível. Infelizmente, ela sucumbiu graças ao mar de corrupção e maracutaia que se estabeleceu, pois os empresários brasileiros têm uma visão extremamente imediatista: não querem esperar por um lucro duradouro.
Mas se o Brasil ocupa uma certa liderança em informática é fruto desta época em que a proibição de compra de certo tipo de computadores importados nos obrigou a aprender a fazer, e a criar soluções inovadoras. Nossas universidades formaram muitos cérebros e esses criaram novas gerações de estudantes que até hoje brilham imensamente.
Alma Nua - O que o conduziu a desenvolver projetos de informática de suma importância para deficientes visuais e físicos?
Antonio Borges - Um mero acaso. Eu era professor de computação gráfica no curso de informática e havia um estudante cego, que não tinha condição de fazer um bom curso por não ter acesso ao computador de forma razoável. Para ele, Marcelo Pimentel, tudo tinha que ser mediado pelo pai ou pelos colegas. Como meu aluno, acabamos por decidir que o curso de computação gráfica para ele deveria ter um outro sentido: deveríamos usar meu conhecimento prévio para criar uma solução mínima em cima da qual ele pudesse crescer, criar sua própria infra-estrutura. E foi o que fizemos, gerando uma solução mínima para síntese de voz, em cima da qual ele criou um editor de textos, hoje chamado de Edivox que na época permitiu que ele digitasse e lesse (soletrando, pois não havia sintetizador da língua portuguesa na época), adquirindo uma independência inimaginável. Eu diria que o desenvolvimento para cegos se estabeleceu como algo represado e que tinha forçosamente que crescer.
Eu só fui um instrumento disto, conseguindo unir pessoas em prol deste sonho e perseverando durante estes 14 anos sem esmorecer.
Quanto aos deficientes motores, foi mais ou menos o mesmo. Eu primeiro me sensibilizei com diversas pessoas que via sem poder usar o computador, até que um dia uma certa pessoa, Lenira Luna, me procurou, e como ela era muito insistente, acabei fazendo uma solução para ela, o Motrix. Outra pessoa foi a Luciana Novaes, com a qual me sensibilizei por sua situação de imobilidade, para a qual criei o que hoje chamamos de Microfênix. Mas foi tudo meio inexplicável, foi acontecendo sem grande planejamento.
Acho que a causa de tudo é que existe a necessidade e eu tenho uma bagagem muito grande que me permite criar em áreas em que pouca gente consegue atuar. Até mesmo meu conhecimento de música (sou também formado em Piano, que é minha primeira graduação), permite um nível de criação mais diversificado do que a maior parte de meus colegas.
Alma Nua - Conte para nós o que são os projetos dosvox e motrix por você idealizados.
Antonio Borges - O Dosvox é um sistema que permite que uma pessoa cega use o computador através de um processo de síntese de voz. O computador fala e a pessoa interage com ele através do teclado. Ele é composto por cerca de 90 programas que atendem a muitas finalidades diferentes, desde a edição de textos, passando pelo acesso à Internet até jogos e utilitários.
O Motrix é um sistema de controle do computador com a voz. A pessoa fala um comando e o computador reconhece e obedece. Com isso é possível mover o mouse, clicar, simular digitação (letra a letra), ativar programas, e realizar controle do ambiente se o computador estiver acoplado a sistemas externos específicos.
Alma Nua - Você foi o pioneiro a criar sistemas de informática no Brasil para deficientes. Hoje milhares de deficientes utilizam os sistemas criados por você. Porém sabemos que ainda há muito o que fazer nesta área, deficientes tem pouco acesso à aquisição de computadores, etc. Você acha que o governo poderia criar sistemas públicos para melhorar esta inclusão digital? O que falta no governo para tal atitude?
Antonio Borges - O governo federal já começa a executar este tipo de ação, fornecendo, por exemplo, laptops para estudantes cegos de segundo grau para que consigam passar pela barreira do vestibular com sucesso. Há programas também de apoio a formação de professores e outras coisas deste tipo. Há também a distribuição de laboratórios de informática para uso por deficientes, e a inclusão de softwares de acessibilidade nos Telecentros.
O problema é o tamanho do Brasil e a imensa carência em todas as áreas. Isso impede a realização de ações muito efetivas que atendam a grandes áreas. A verdade é que o desenvolvimento de computação para deficientes hoje está muito centralizado nas grandes cidades, e mesmo nessas há inúmeros problemas quando se pensa no acesso à maior parte da população deficiente pobre. Sinto, entretanto, que a cada dia que passa se vê novas coisas boas.
A realização do ParaPan, por exemplo, mostrou claramente que há uma mudança enorme nas oportunizações.
Alma Nua - Concomitantemente a criar sistemas de informática o senhor acabou abrindo todo um potencial de mercado que outrora foi inexistente. Existe hoje milhares de deficientes estudando e trabalhando graças aos sistemas criados por você. Todavia boa parte da sociedade ainda não acordou para o fato que este mercado ligado aos deficientes é enorme com mais de 14 milhões de pessoas. O que falta a sociedade para perceber a existência deste potencial?
Antonio Borges - O maior problema é o de educação e de profissionalização. O mercado hoje exige uma pessoa qualificada minimamente. Um percentual baixíssimo de pessoas deficientes hoje, consegue completar o primeiro grau. Então não vai encontrar postos de trabalho, em nenhum lugar, pois nenhuma empresa hoje contrata com menos do que o primeiro grau completo. O que ainda salva é a lei de cotas, que obriga as firmas a aceitar pessoas que não aceitaria normalmente devido à baixa preparação.
Para posições de maior complexidade, ainda é mais difícil: por exemplo, o número de pessoas treinadas, com bom conhecimento da língua portuguesa e com conhecimento de informática é irrisório. Há vagas em abundância, mas poucos deficientes preparados para assumi-las.
Isso não quer dizer que não exista restrições nem preconceito. Certamente há, mas a raiz de todas as dificuldades tem um nome: escolaridade precária.
Alma Nua - Hoje em dia é moda discutir inclusão de deficientes na sociedade. Especialmente na educação. Porém boa parte de nossa sociedade tem apenas o discurso e não a metodologia necessária para que tal inclusão ocorra. Como educador como você observa esta dicotomia entre o discurso e a prática?
Antonio Borges - O processo de inclusão é exatamente isso, um processo. Não é algo que se resolva com uma canetada. O desenvolvimento de soluções demora muitos anos, e neste processo, muitos erros são cometidos. Acho que passado o momento inicial do "oba oba" de inclusão a qualquer preço, os educadores estão achando os caminhos, que envolvem a utilização coordenada de ensino especializado junto com a escola convencional, a utilização de tecnologia e muitas outras coisas, inclusive de ordem administrativa e política.
Os educadores começaram há pouco tempo a ser treinados, e até atingirem um grau aceitável, demora um tempo. Há também carência na aquisição de artefatos tecnológicos, de adaptação nas escolas e de material didático adaptado.
O caminho da inclusão é bastante longo, e apenas começa a ser trilhado.
Alma Nua - Quais os projetos de futuro que você pretende desenvolver?
Antonio Borges - Não faço grandes planos de desenvolvimento. Sigo o fluxo da vida e a intuição. As idéias e oportunidades aparecem na minha frente e eu geralmente sou tomado pela curiosidade, que acaba se transformando em algo utilizável. Há uma imensa vantagem de trabalhar no NCE, que me permite sonhar e realizar.
Alma Nua - Ha uma guerra crescente especialmente ao que se refere a uso de plataformas operacionais. Uma guerra que hoje tem o potencial de uma guerra mundial, corporações tendo inclusive lastro econômico maior que muitos países. O tema da disputa poder. O que este cenário em sua opinião prepara para o futuro?
Antonio Borges - Num mundo globalizado tudo é assustador, e não há realmente controle disponível para nós pobres mortais. Na busca desenfreada por lucros, a única coisa que nos resta ter é um posicionamento firme ecológico, para que a destruição no planeta, tanto a nível ambiental quanto a nível social seja minimizada.
Alma Nua - Na área da informática você também atuou criando sistemas CAD para eletrônica, microeletrônica, computação gráfica tridimensional, multimídia e síntese de voz.O que você ainda não fez na área e que gostaria de desenvolver?
Antonio Borges - Gosto muito de novidades, e tenho amigos que também gostam. Quando alguma maluquice nova me aparece gosto de me embrenhar um pouco a estudando.
Aí, geralmente alguma coisa sai, nem que seja de brincadeira. Às vezes sai coisa séria que acaba permeando a vida de muita gente, sem que eu tenha feito realmente grande planejamento.
Alma Nua - Você se sente uma pessoa realizada na vida?
Antonio Borges - Realização é uma palavra difícil. Pode querer dizer que "acabou, chegou ao fim". Não é isso comigo. Um neologismo que melhor definiria este status é a expressão "realizante". Eu sou um realizante, alguém que realiza a cada dia.
Realizar implica em paixão e também freqüentemente em angústia e felicidade.
Desta tríade, paixão, angústia e felicidade, sai uma pessoa que dá graças a cada dia por ter tido as oportunidades que me permitem ser um realizante.
Alma Nua - Como é para você encostar a cabeça no travesseiro e pensar: “tanta gente está por ai se desenvolvendo com meus projetos...”.
Antonio Borges - Penso pouco nisso. Às vezes penso quando me falam nisso e fico feliz, é claro. Mas geralmente estou ocupado demais para ficar dormindo em cima destes louros.
Alma Nua - Você foi premiado pelo projeto de multimídia para crianças "Conhecendo as Letrinhas com o Menino Curioso" como a melhor multimídia educacional no Festival Internacional de Multimídia, em Paris, 1995. Como surgiu este projeto?
Antonio Borges - De brincadeira em casa. Desafiei minha ex-mulher a criar um programa para educação de crianças e ela criou o design do Letravox, o programa de letrinhas do Dosvox, numa criação coletiva em que rimos muito em família, junto com os dois filhos (Liane e Tiago) que eram pequenos na época e com minha ex-cunhada.
Depois apareceu a idéia de colocar computação gráfica, e uma empresa de um amigo se interessou. Ficou bonitinho, e usava uma tecnologia inovadora naquela época.
Uma amiga que organizava o Festival aqui no Brasil, me disse para me inscrever, e eu acabei ganhando aqui. Fui a Paris, e dei muita sorte, porque o Brasil estava na mídia por causa do massacre das crianças, então em meu discurso durante a apresentação realizado no auditório do CNRS, em inglês macarrônico, eu fiz uma ligação da brutalidade brasileira com a leveza da multimídia, que emocionou o júri, e nos fez ganhar (na verdade foi um empate com os japoneses, que levaram uma bruta equipe e chegaram a alugar um andar de um hotel para comemorar a vitória por antecipação). Nós não tínhamos nada disso e nosso diploma, ganhado no auditório do primeiro andar da Torre Eiffel, foi comemorar jantando no Quartier Latin uma boa macarronada. Mas foi muito divertido, e Paris é uma linda cidade.
Alma Nua - Você é um homem muito antenado com a função social de seu trabalho. Você sempre foi assim? Sempre te preocupou a criação de projetos relevantes e de utilização prática?
Antonio Borges - Acho que tenho bom coração e procuro ser coerente com certas premissas e atencioso com as pessoas. Não sou um grande realizador social. Sou apenas um programador que tem amigos que sabem fazer as coisas, e em equipe mandamos brasa.
Alma Nua - O que José Antonio Borges gosta de fazer em suas horas de folga?
Antonio Borges - Conviver com meus filhos o mais que possa, ainda mais agora em que como estou separado deles por meu segundo casamento. Gosto muito de namorar e transar com minha esposa. Eu e ela também gostamos muito de comer em um bom restaurante com uma bebida leve (um Martini ou uma caipirinha), mas só uma dose.
Quando há possibilidade fazer uma viagem de total lazer me encanta, pois eu viajo muito, mas sempre a trabalho.
Alma Nua - Um livro de cabeceira?
Antonio Borges - Eu lia desbragadamente quando menino. Hoje leio durante todo dia inúmeras coisas técnicas quase todas em inglês. Como resultado a leitura hoje já me agrada menos do que antes. Não costumo ter nenhum livro de cabeceira, mas gosto muito de ler romances de ficção científica.
Alma Nua - Um cd interessante?
Antonio Borges - Um CD antigo, chamado "The Well-tempered Synthesizer", com Walter Carlos, um engenheiro eletrônico americano que na década de 70 demonstrou na prática a possibilidade de criação musical com sintetizadores, transcrevendo obras polifônicas de Bach, criando exibições musicais interessantíssimas, com arranjos realizados em sintetizadores Moog muito rudimentares que existiam na época. Como sou músico durante muitos anos ficava com água na boca de poder fazer este tipo de coisas, mas isso seria caríssimo na época.
Hoje tenho vários sintetizadores modernos em casa, e posso realizar com facilidade arranjos musicais de todos os tipos, mas tudo teve início com aquele pioneiro.
Nota: Soube recentemente que Walter Carlos mudou de sexo e denomina-se hoje Wendy Carlos. Não temam, eu não pretendo mudar de sexo, só porque eu admiro o trabalho realizado.
Alma Nua - Um ídolo e ou uma pessoa que vale a pena conhecer?
Antonio Borges - Não costumo idolatrar ninguém, mas se é para dizer alguém, eu diria que meus ídolos são meus antepassados, em cima de cuja construção eu sou o que consegui criar.
Alma Nua - Atualmente há uma crise institucional em que o analfabetismo funcional assola nossa civilização. Muita gente entrando na universidade sem conteúdo nem base para a freqüentar. Como você observa esta crise de valores para a educação?
Antonio Borges - Como uma burrice dos últimos governos, com ações populistas e pouco práticas no ensino fundamental. Espero que o governo acorde e descubra que um país se faz com homens e livros (hoje também com computadores e internet).
Alma Nua - Existe um temor coletivo em que se discute filosoficamente a sobreposição da máquina ao ser humano. A história do cientista maluco tentando inventar um aparelho para decodificar e ou condicionar percepções, afetos, que possa instalar ao fim do dia conhecimento programando um indivíduo. O que você acha disto tudo? A bio informática do futuro vai resolver tudo instantaneamente?
Antonio Borges - O homem tem o dom de destruir e de construir como nenhum outro ser na terra.
Acho que as máquinas em pouco tempo vão emular emoções com facilidade, que os cyborgs e robôs vão ser extremamente comuns e que a maior parte das doenças e deficiências vai estar equacionada.
Nós não enxergamos de noite, e existe a lâmpada para mudar isso. Nós temos velocidade limitada e os motores me dão este poder. Os homens não podem voar, mas existem aviões. Os homens não suportam viver sem ar, mas podem mergulhar com equipamentos. Minha esposa é tetraplégica e eu convivo maravilhosamente com ela, pois nossa vida é pontilhada de tecnologia em todos os momentos. A tecnologia transforma as nossas deficiências em eficiências, e esse é o caminho irreversível para toda a humanidade. Mas acredito também numa grande destruição no planeta, provocada pela ambição desenfreada dos governos do mundo, seguida pelo estabelecimento de um novo tempo em que a humanidade vai finalmente perceber que o bom é alcançar seu ponto de equilíbrio ecológico e de paz duradoura, com a evolução espiritual associada.
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