Ainda há muito a ser conquistado!
Rede SACI
25/09/2007
A falta de referências ao Dia Nacional de Luta das Pessoas com Deficiência na grande mídia gera reflexões sobre o que já foi conquistado e o que ainda falta para as pessoas com deficiência
Adriana Lage
No último dia 21, fiquei triste ao constatar que o Dia Nacional de Luta das Pessoas com Deficiência quase não foi citado pela imprensa. Na mídia impressa e televisiva, pouca coisa foi dita. Muitos eventos foram programados para a comemoração dessa data, mas, pelo menos nos jornais de grande circulação em BH, quase nada foi dito! Na mesma data, comemora-se o Dia da Árvore. Para se ter uma idéia, a empresa em que trabalho mandou emails para todos os funcionários lembrando sobre a importância do dia da árvore, mas nem sequer cogitou ressaltar para seus funcionários a importância da luta das pessoas com deficiência; Vale lembrar que a empresa é um dos principais patrocinadores do esporte paraolímpico além de ter implantado um modelo de valorização da diversidade! O meio ambiente engloba não apenas o verde, mas também todo o restante da natureza, incluindo o ser humano.
Quando penso na dura realidade enfrentada por nós, pessoas com deficiência, chego à conclusão de que muitas melhorias já foram conquistadas, mas ainda há muito a ser feito... É visível a evolução da sociedade: as pessoas com deficiência não mais são associadas a alguma maldição ou castigo, nem vivem exclusivamente da caridade e piedade dos demais; a idéia de confinamento em instituições especializadas também perdeu sua força...
Mas como ficar indiferente diante dos seguintes fatos:
A grande maioria das pessoas com deficiência recebe até dois salários mínimos, sobrevivendo, em grande parte, na informalidade. Todos os dias, próximo ao meu local de trabalho, me deparo com alguns cadeirantes, no centro da cidade, vendendo BIS ou na mendicância. É triste imaginar que essas cenas ainda se repetem...
Menos de 2% dos deficientes brasileiros possui mais de 12 anos de estudo. Sou cadeirante e na época em que era criança, muitas escolas não aceitavam pessoas com deficiência entre os alunos ‘normais’. Felizmente, estudei do 2º período à 8ª série na mesma escola; ela não era acessível, mas os funcionários sempre me carregaram para todos os lugares. Nessa época, não se falava e/ou praticava a educação inclusiva. No final do ano, farei 30 anos. É triste saber que, mesmo depois de tanto tempo e com todos os avanços na legislação, ainda são comuns casos de pais que precisam entrar na Justiça para fazerem valer o direito que seus filhos têm de estudar. Para mim, os anos de estudo são muito relevantes para que uma pessoa tenha sucesso em sua vida profissional. Quanto melhor preparada estiver, maiores serão as chances de se obter um bom emprego e, conseqüentemente, uma boa qualidade de vida. A independência financeira, além de trazer um aumento da auto-estima do deficiente, permite a ele desfrutar melhor de tudo de bom que a vida pode nos oferecer, sem depender da boa vontade dos outros... Por experiência própria, posso garantir que as pessoas passaram a me respeitar mais a partir do momento em que comecei a trabalhar.
Ainda hoje, alguns pais abandonam a família quando um filho nasce com alguma deficiência. Outros culpam as mães por isso... Em outros casos, a família tem vergonha de possuir um membro deficiente, deixando escondido em casa...
Ainda nos deparamos com ruas esburacadas, cheias de degraus, carros estacionados irregularmente nas vagas destinadas às pessoas com deficiência ou sobre as calçadas... escadas, a falta de informações em Braille, o desconhecimento do código LIBRAS, etc..
O grande o preconceito em relação aos relacionamentos amorosos, oriundo de uma cultura machista e, muitas vezes, fruto da própria família... A impressão que tenho é que para muitos homens, independente de qualquer coisa, o fato de andar em cadeira de rodas faz com que eu seja menos mulher que as ‘normais’.. Não importa se você é uma pessoa legal, chata, inteligente, bonita, preconceituosa.... pois a visão da cadeira de rodas na maioria das vezes sempre choca os outros. E, além disso, em muitos casos, associam a idéia da deficiência ao trabalho que julgam que nós, pessoas com deficiência, daremos a eles.
Durante a realização do PAN, houve uma exaustiva cobertura por parte da imprensa. Já nos jogos do ParaPan....
Por que quase nunca vimos um (a) modelo com deficiência ser a estrela de uma propaganda ou de um filme?
A falta de infra-estrutura nos meios de transportes, acaba restringindo o direito de ir e vir das pessoas com deficiência. Por exemplo, já tive minha cadeira de rodas danificada parcialmente durante uma viagem de avião: quando fui me sentar nela durante o desembarque, algumas peças haviam sumido e outras estavam bambas.. Nesse final de semana, não pude visitar minha avó no interior de Minas por falta de ônibus com elevador. Independente do elevador, o corredor é muito estreito, dificultando a vida não só de deficientes, mas também de obesos, idosos e gestantes. Nem sempre se encontra um funcionário disposto a ajudar..
Esses são apenas alguns exemplos de situações que passam despercebidas pela maior parte da população, mas que me incomodam e mostram que o caminho a ser percorrido ainda é longo.. O preconceito ainda é muito grande e, em muitos casos, velado. Acredito que nossa sociedade ainda não é evoluída o suficiente para conviver com a diversidade. Falta bom senso por parte de algumas pessoas , pois muitos comentários e olhares doem, machucam, deixam marcas profundas que podem ser carregadas pelo resto da vida.
Enfim, é preciso continuar sempre. Comemorar cada vitória.. Ao longo dos anos de luta das pessoas com deficiência pelos nossos direitos, muitas conquistas importantes foram obtidas, como, por exemplo, a Lei das Cotas, a isenção de IPI/ICMS para a compra de veículos, o Passe Livre, o direito à educação inclusiva, o Decreto 5296/2004, o reconhecimento de nossa capacidade nos esportes, artes, literatura... Procuro fazer minha parte, reivindicando e cobrando melhorias na acessibilidade da minha cidade. Ainda há muito para conquistarmos.. só depende de nós!
"A força não provém da capacidade física e sim de uma vontade indomável" (Gandhi).
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