A aprendizagem da criança e suas dificuldades

Rede SACI
31/05/2005

É importante que o professor conheça seus alunos para que saiba como contornar as dificuldades em sala de aula

Julianne Fischer

As chamadas dificuldades de aprendizagem são um assunto vivenciado diariamente por educadores em sala de aula. Dificuldades de aprendizagem é um tema que desperta a atenção para a existência de crianças que freqüentam a escola e apresentam problemas de aprendizagem. Por muitos anos, tais crianças têm sido ignoradas, mal diagnosticadas e mal tratadas. A dificuldade de aprendizagem vem frustrando a maior parte dos educadores, pois na maioria das vezes não encontram solução para tais problemas.

Acreditamos que as crianças com problemas de aprendizagem constituem um desafio em matéria de diagnóstico e educação. No entanto, não é raro encontrar professores, inclusive graduados, que consideram, a priori, alguns alunos preguiçosos e desinteressados. Essa atitude não só rotula o aluno, como também esconde a prática docente do professor, que atribui ao aluno certos adjetivos por falta de conhecimento sobre o assunto em questão. Muitos desses professores desconhecem, por completo, que essas mesmas crianças podem estar apresentando algum problema de aprendizagem, de ordem orgânica, psicológica, social, ou outra. Enfim, são tantas as variáveis, que é imprescindível ao professor, antes de rotular os seus alunos, conhecer os problemas mais comuns no processo de ensino-aprendizagem. Dessa forma, conseguirá ampliar o seu horizonte de reflexão e, conseqüentemente, também as suas percepções e a visão do todo.

Na nossa opinião, a forma de ensinar abrange a observação da criança em sala de aula ou em outras atividades como Educação Física, Educação Artística e recreio. Devemos verificar como a criança brinca, ouvir o que ela tem a dizer, ouvir as conversas das crianças entre si, tentar perceber como ela vê o mundo, como organiza o seu modo de pensar, qual a sua lógica, permitir que ela manipule objetos diversos, que movimente e aprenda os diferentes conteúdos, utilizando o seu corpo inteiro.

Talvez a maior dificuldade no relacionamento entre educadores e crianças com problemas de aprendizagem seja justamente a falta desta visão global do ser humano, pois a tendência atual é analisar a criança parte por parte, como se ela fosse só um cérebro, um ouvido, um nariz ou um par de olhos.

Também temos presenciado alguns educadores colocando que crianças de favelas são incapazes de aprender, que seu aluno não aprende porque seu pai também era "burro" na época em que estudou naquela escola, e que quando entram na sala de aula precisam, infelizmente, baixar o nível de suas explicações, pois do contrário, os seus alunos não aprendem. Estas e outras conversas absurdas são colocadas nas salas dos professores. Perguntamos, então, por que não buscar soluções e trocar experiências com os colegas ao invés de rotular os seus alunos? É fácil atribuir a uma criança uma deficiência cognitiva a partir de uma resposta imprópria que ela dá num teste, mas se o sujeito fosse um adulto bem colocado socialmente, respondendo do mesmo jeito, a interpretação seria bem diferente. Isso sem falar das crianças excepcionais e lesadas cerebrais, que para muitos educadores parecem serem incapazes de aprender e que não passam de meros cascalhos.

Ao meu ver, na verdade, são pedras preciosas, que na sua simplicidade e alegria nos ensinam a viver, e quando acreditamos no seu potencial e na sua capacidade cognitiva elas aprendem. O que precisamos entender é que todas as pessoas possuem algum tipo de dificuldade de aprendizagem por muitas razões e causas diferentes. Essas dificuldades aparecem em função do que se tem para fazer, em maior ou menor grau. Um adulto tem dificuldade para lidar com um computador, embora na universidade seja um respeitável cientista ou um homem culto. Já o seu filho, utiliza-o sem maiores problemas. Partimos do princípio de que, dificilmente, as crianças são iguais, que a diferença entre os indivíduos de um certo grupo é fundamental, pois sem essa desigualdade não seria possível a troca e, conseqüentemente, o alargamento das capacidades cognitivas pelo esforço partilhado na busca de soluções comuns.

Problemas de aprendizagem sempre existirão, e isto é maravilhoso! Porque por trás do erro de um aluno, está a oportunidade de descobrirmos como ele organiza o seu pensamento. O erro proporciona vida dentro de uma sala de aula, pois alguns alunos, aqueles que erram, pensam diferente dos demais, e isto, pode não parecer, mas é ótimo, pois proporciona uma riqueza cognitiva à disposição do professor. Aquele aluno que decora, não aprende com o real significado, mas aquele que erra nos mostra que está pensando, elaborando o seu conhecimento, construindo o seu saber.

O professor precisa, ao defrontar com os erros de seus alunos, questionar o porquê daquela resposta, e assim, começará a entender como eles pensam. É assim que nós educadores temos a oportunidade de aprendermos mais sobre nossos alunos. Temos, também, a chance de construirmos novos caminhos para solucionarmos os problemas que nos são apresentados.

Devemos lembrar que, nós educadores somos pesquisadores na nossa essência, e por isso devemos nos aprofundar e vivenciar de fato a nossa prática pedagógica. Devemos entender a nossa responsabilidade frente aos nossos alunos, lembrando que o nosso aluno será o que esperamos dele.

Julianne Fischer é membro da Fundação Universidade Regional de Blumenau - Departamento de Educação - FURB

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