Portadores de deficiência e Aprendizagem

Psicopedagogia Online
11/12/2003

Entrevista: Maria Lúcia Toledo Moraes Amiralian*

Comentário SACI: Entrevista publicada em 25 de novembro.

"Creio poder afirmar que a maior carência no atendimento das crianças com deficiência é um desconhecimento de suas capacidades e limites e de seus caminhos para a aprendizagem."

Quais são as maiores carências e necessidades dos portadores de deficiência quando falamos de aprendizagem?
Quando falamos de aprendizagem e crianças ou jovens com deficiência sempre nos vêm à mente a idéia de que as questões - aprendizagem e deficiência - são diferentes faces de uma mesma moeda. Pensa-se que todas as pessoas com deficiência têm problemas de aprendizagem e esses são inerentes à condição de deficiência. Esta é uma questão básica sobre a qual é importante refletirmos, principalmente nos dias de hoje, pois vivemos um momento em que a inclusão escolar tem sido a nota dominante de todas as discussões pedagógicas e educacionais, e a educação de qualidade para todos buscada como o objetivo principal da educação. Será que a crença geral de que todas as pessoas com alguma deficiência terão necessariamente dificuldades de aprendizagem é um fato ou um conceito pré-concebido? A experiência no campo tem mostrado que as duas afirmativas mostram um fundo de verdade. Embora seja possível observar grande número de indivíduos com problemas físicos ou funcionais sem qualquer dificuldade de aprendizagem há também muitos outros que são prejudicados em seu processo de desenvolvimento e aprendizagem devido à deficiência que possuem. Vê-se, portanto que estamos diante de uma situação muito complexa - o significado de aprendizagem e de distúrbios ou problemas de aprendizagem para as crianças e jovens com deficiência. Inicialmente deve-se salientar que, seja referindo-se as pessoas com deficiência ou não, as questões aprendizagem e problemas de aprendizagem possuem várias vertentes e várias origens. Se pensarmos em aprendizagem como um processo do indivíduo para a aquisição de competências e habilidades que torne possível e prazeroso seu funcionamento e interação com mundo ao seu redor, podemos dizer que os distúrbios ou problemas de aprendizagem ocorrem quando essa competência não é atingida. As razões para que isso ocorra podem ser várias e uma das principais funções dos educadores é ser capaz de identificar e discriminar as verdadeiras causas dessas dificuldades.

Sabe-se que as dificuldades de aprendizagem podem ser causadas por problemas físicos, por problemas neurológicos, por problemas afetivos emocionais ou por problemas pedagógicos. O problema de aprendizagem para algumas crianças pode ter o significado de revelar que ela não está sendo satisfatoriamente atendida, sendo necessário mudanças nas estratégias pedagógicas, para outras pode significar um pedido de ajuda diante de um ambiente altamente frustrador, caso em que a problemática pode estar principalmente relacionada a questões afetivo emocionais ou pode ainda significar um gesto de esperança frente a um ambiente que precisa rever seu atendimento a essa criança, caso de crianças em que o problema de aprendizagem pode estar relacionado a comportamentos anti-sociais. Mas, sabe-se também, que na maioria das vezes suas causas estão relacionadas a um conjunto de fatores que muitas vezes incluem todos esses problemas. Por esta razão uma das funções mais importante do profissional que trabalha com as questões de ensino-aprendizagem é poder perceber o significado desse distúrbio para a criança em questão.

Para as crianças e jovens com deficiência esses distúrbios terão o mesmo significado e, principalmente, poderão estar nos mostrando que não sabemos como oferecer o mundo para aqueles que são diferentes de nós.

Creio poder afirmar que a maior carência no atendimento das crianças com deficiência é um desconhecimento de suas capacidades e limites e de seus caminhos para a aprendizagem. As pessoas com deficiências físicas ou funcionais têm uma forma peculiar de relacionar-se com o mundo, e, portanto de aprender, que está relacionado com sua deficiência específica. Por ex. as crianças cegas relacionam-se com mundo por meio uma organização perceptiva diferente daqueles que enxergam, e isso precisa ser respeitado. Mas, muitas vezes o que se vê é uma tentativa de impor a elas a maneira que consideramos correta de aprender e fazer as coisas, ao invés de procurarmos compreender e nos inteirar da sua própria maneira de aprender e fazer as coisas.

Quem tem papel preponderante para o desenvolvimento de potencialidades bio-psíquicas, emocionais, afetivas e cognitivas, a família ou a escola?
Essa é uma questão que não é fácil de ser respondida. Acredito que tanto a família como a escola tem papel preponderante no desenvolvimento do ser humano. Se pensarmos na teoria do amadurecimento proposta por Winnicott que nos diz que o indivíduo em seu desenvolvimento caminha em relação ao ambiente de uma dependência absoluta para uma dependência relativa e desta rumo a independência, vemos que o ambiente é sempre fundamental para o indivíduo. O ser humano é um ser interacional pela própria natureza, ele só existe na relação com outro ser humano. Por outro lado deve-se lembrar que quanto mais próximo ele estiver do seu inicio mais ele dependerá do ambiente, Desta forma o papel da família é preponderante na constituição do indivíduo em seus primeiros momentos de desenvolvimento e de vida, mas quando a criança entra na escola esta também torna-se responsável pelo seu bom desenvolvimento. A escola poderá ou não se constituir como um ambiente facilitador para o desenvolvimento pleno de seus alunos, tanto considerando seu desenvolvimento somático, como o afetivo-emocional e cognitivo.

Na orientação com pais de deficientes, o que você aconselha aos profissionais?
Na orientação aos pais de crianças e jovens com deficiência alguns aspectos considero fundamentais:

Sustentar as angustias e as ansiedades dos pais - Os profissionais devem estar preparados para apoiar esses pais, eles freqüentemente encontram-se cheios de medos, duvidas, ansiedades e questionamentos sobre as possibilidades e limitações de seus filhos, tanto em relação à capacidade para a aprendizagem como para sua sociabilidade e aceitação social.

Abrir um espaço para que os pais possam falar de suas insatisfações sem culpa.- Não é fácil Ter um filho com deficiência é um desgaste e uma complicação física, psíquica e financeira. Uma atitude critica e punitiva dos profissionais para com os pais leva-os ao incremento de seus sentimentos de culpa e de confirmação de sua ferida narcísica - Sou mesmo incapaz de criar um filho - Essa atitude não favorece o relacionamento entre pais e filhos e não ajuda no desenvolvimento de nenhum deles.

Dar confiança aos pais para continuarem em sua tarefa de educar um filho. Mostrar-lhes que eles são os maiores conhecedores de seus filhos e aqueles que têm mais competência para essa tarefa e que, mais do que ninguém, eles são capazes de atender as necessidades de seus rebentos. Acredito que uma das principais funções na orientação de pais é essa. Valorizar a atuação dos pais e auxiliá-los a assumir o papel que lhes é inerente - orientar seus filhos até a idade adulta -. O profissional especializado é um auxiliar que deverá Ter como objetivo ultimo levar os pais a atender as necessidades de seus filhos, ensiná-los e prepará-los para a independência e, principalmente devem cuidar para não usurpar dos pais o papel que lhes é próprio.

E finalmente dar informações pertinentes às especificidades decorrentes da deficiência de seu filho - As deficiências físicas e cognitivas impõem situações peculiares para o desenvolvimento e aprendizagem das crianças, alguns caminhos perceptuais e cognitivos, próprios da deficiência física, devem ser explicados aos pais. Outro aspecto importante é incentivá-los a aprender alguns recursos pedagógicos específicos que são usados por seu filho, por ex. Braille, sorobã, língua de sinais etc... Essas informações, que devem ser do domínio dos especialistas, devem ser compartilhada com os pais. Algumas dessas informações exigem muito trabalho e continuo reforço, outras são informações simples e corriqueiras, por exemplo: ao falar com seu filho cego sobre um objeto procurar dar-lhe também essa mesma informação por meio tátil cinestésico.

A alta expectativa de desempenho em atividades, colocação de limites, valorização excessiva de problemas, culpa, etc...Que implicações têm na aprendizagem do deficiente?
Todos esses aspectos colocados têm implicações negativas para a aprendizagem, mas acredito que valem tanto com as pessoas com imperfeições físicas e funcionais que caracterizam uma deficiência como para aquelas consideradas não deficientes. Considero que a questão da alta expectativa de desempenho em atividades é tão nefasta como a baixa expectativa de desempenho. De um lado há o pressuposto de que a criança jamais irá alcançar o que se espera dela e do outro a crença de que nunca poderá alcançar o desejável, portanto nas duas situações há a confirmação de sua incompetência. A criança precisa ser incentivada para aprender e ser valorizada em suas aquisições. Outra questão abordada que considero de extrema importância é o que vocês denominaram de colocação de limites. Esse é um conceito que considero fundamental no processo de desenvolvimento e aprendizagem do ser humano, mas muitas vezes percebe-se como ele é pouco compreendido e muitas vezes confundido com castigo e punição. A colocação de limites é uma função do ambiente que deve informar ao ser humano das suas possibilidades e impossibilidades. Todos nós precisamos saber o que se pode fazer com o próprio corpo, quais e como usar nossas capacidades cognitivas e como relacionar-se com o outro sem invadi-lo nem se deixar invadir. Vemos, portanto que é uma função totalmente diferente da imposição de limite como uma demonstração de força ou de uma contenda entre duas vontades. As pessoas com deficiência, como todos nós, precisam ter consciência de seus limites verdadeiros.

Criar um filho com deficiência é uma tarefa difícil para os pais. Qual a importância da orientação familiar?
Criar um filho com deficiência é uma tarefa muito complicada para os pais porque além de todas as dificuldades afetiva-emocionais que essa condição acarreta, em nosso país convivemos com uma situação de poucos recursos profissionais, técnicos e sociais. É verdade que não se pode negar o grande progresso que tem havido nesse campo de estudos. Nessas ultimas décadas pode-se verificar uma importante mudança de atitudes. O atendimento às pessoas com deficiência deixou o âmbito do assistencialismo em que vivia a 30, 40 anos atrás e é agora tratado cientificamente como uma importante área de estudos nas Universidades. O desenvolvimento da área concorre com a diminuição do preconceito aos quais os pais também estão submetidos e o entendimento mais realista da condição de deficiência ajuda a todos e principalmente aos pais em sua tarefa de criar um filho com deficiência.

Que diferenças são notadas quando a família participa do processo de escolarização de seu filho?
A participação da família no processo de escolarização de seu filho é condição fundamental tanto para o bom desenvolvimento da aprendizagem como para favorecer uma interação saudável entre pais e filhos, este é um importante fator que concorre para um desenvolvimento sadio e que pode ajudar na prevenção dos grandes problemas que temos vivido atualmente com nossa juventude. Todavia, do meu ponto de vista essa não é uma questão especifica as pessoas com deficiência mas é fundamental a todos. Penso que uma grande falha em nosso sistema de ensino é a distancia que há entre a escola e a família do aluno. Os pais geralmente só são chamados à escola quando seus filhos apresentam problemas, quando há alguma reclamação a ser feita. Situação que concorre para o afastamento dos pais e não para sua aproximação à escola. Seria importante pensar-se em estratégias que viessem a promover um maior intercâmbio entre a escola e a família.

Hoje as instituições dão apoio às famílias?
Observa-se hoje uma grande preocupação de todas as Instituições com essa questão, mas do meu ponto de vista há ainda um grande caminho a ser percorrido de modo que esse apoio torne-se plenamente satisfatório. Creio estarmos ainda em uma situação dissociada e dicotômica. Os profissionais são os detentores do saber e as famílias de vem ser orientadas. Acredito que uma situação de parceria e troca seria mais frutífera.

Que tipo de deficiência os profissionais tem menos preparo para tratar?
Os profissionais não especialistas de um modo geral sentem-se desconfortáveis no atendimento a pessoas com qualquer tipo de deficiência. Há um desconhecimento geral sobre as implicações das deficiências na aprendizagem e desenvolvimento do ser humano e, ao lado disso, os mitos e significados simbólicos que revestem essa condição na qual todos estão imersos. Assim, compreende-se o receio dos profissionais no atendimento às pessoas com deficiência e sua sensação de despreparo. Talvez seja importante relembrar, e tentando enfatizar, que as pessoas com deficiência antes de serem deficientes são pessoas, portanto estão sujeitas às mesmas leis de desenvolvimento e aprendizagem de todo ser humano. Não quero dizer com isso que são iguais, pelo contrário possuem diferenças que são significativas e que devem ser consideradas. Dizer que a pessoa com deficiência é em tudo igual aos não deficientes é um engano e um preconceito tão grande como aquele que diz que ela é totalmente diferente. Por esta razão considero fundamental profissionais especializados nos diferentes tipos de deficiência que servirão de apoio a toda a comunidade, pais, escola, mercado de trabalho, industrias de entretenimento, e etc...na sua relação com as pessoas com deficiência.

*Maria Lúcia Toledo Moraes Amiralian - Doutora em Psicologia e docente da USP, coordenadora do LIDE - Laboratório Interunidades para o Estudo das Deficiências - Instituto de Psicologia - IPUSP.

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