Música e Deficiência - Apresentação

Rede SACI
São Paulo-SP, 13/11/2002

Viviane abordará, em série de matérias, um tema ainda pouco comum na área da deficiência

Viviane Louro*

Meu nome é Viviane Louro e como repórter voluntária da Rede SACI, escreverei uma série de matérias sobre um tema pouco explorado: Música e Deficiência.

O interesse por esse assunto não nasceu por acaso. Nasci com uma doença neuromuscular denominada "Hipotonia Muscular Benigna", que determina que minha musculatura, de forma geral, seja mais fraca do que a de uma pessoa normal.

Para mim, ações como pular, correr, carregar peso, agachar, subir escadas, entre outras, são um grande desafio, além do que não possuo alguns movimentos, como por exemplo os dos pés.

Em minha infância fiz oito cirurgias, muita fisioterapia e usei por anos diversos aparelhos ortopédicos para corrigir algumas deformidades que a falta de musculatura havia provocado em minha estrutura óssea. Quando criança, minha coordenação motora e força das mãos eram debilitadas, bem como as articulações de meus dedos, que eram rígidas.

Com um ano e meio de idade ganhei de meu pai um pianinho de brinquedo. Foi aí que tudo começou. Conta minha mãe que eu era tão fascinada pelo "pianinho", que o preferia ao invés de qualquer outro brinquedo e que eu passava horas "tocando-o".

Minha mãe, então, observando que eu forçava minhas mãos abrirem e meus dedos mexerem quando estava diante do instrumento de brinquedo, resolveu - quando completei 4 anos - colocar-me para estudar piano, com o propósito de exercitar minhas mãos, visto que diante do piano eu me sentia motivada.

Tive muitas dificuldades no que tange à aprendizagem musical. Mesmo tendo um problema físico que de certo modo dificulta muitas coisas para mim, inclusive minha performance pianística, posso dizer que nada foi mais difícil de transpor do que o preconceito das pessoas.
Nunca questionei se seria possível ou não tocar piano, pois minha vontade sempre foi muito maior que qualquer dificuldade aparente. Infelizmente, muitas pessoas questionaram isso por mim e lançaram em meu caminho obstáculos que não eram necessários.

Ouvi diversas vezes de médicos, professores de música e de outras pessoas: "Você não vai conseguir tocar piano tendo o problema que você tem" ou "Você precisa conscientizar-se de que é deficiente" ou ainda "Tocar piano já é difícil pra quem é normal, como você vai fazer?", entre muitas outras expressões.

Como eu iria fazer, eu não sabia, mas sabia que queria muito aprender a tocar piano e, que portanto, daria um jeito. E foi o que aconteceu.

Apesar das dificuldades, tive aulas particulares com diversos professores de piano até os 11 anos, quando então entrei na Fundação das Artes de São Caetano do Sul, onde me formei no curso técnico em música - especialização em piano. Depois, graduei-me na Faculdade de Artes Alcântara Machado (FAAM) em Bacharelado em piano e atualmente, aos 23 anos, freqüento o curso de Mestrado em Música da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), na área de Educação Musical.

Mesmo tendo conseguido de certa forma estudar música toda minha vida, sei que se não fosse deficiente as coisas seriam mais fáceis por parte das pessoas. Posso dizer que só tive uma aula de piano de verdade em minha vida por volta dos 14 anos, quando conheci um professor que veio falar comigo dizendo que havia percebido que eu tinha um grande potencial artístico, mas que precisava trabalhar algumas coisas referentes à técnica pianística.

Até esse momento, todos os professores com quem eu havia estudado tinham uma postura muito passiva diante de meu problema, e não me davam o incentivo necessário e por vezes mal me davam aulas, pois não acreditavam que seria possível uma melhora pianística de minha parte. Portanto, passei praticamente 10 anos sem ninguém acreditar e investir verdadeiramente em mim.

Em conseqüência desse tipo de postura de professores, criei vários vícios em relação à maneira de tocar piano, desenvolvi-me muito pouco e comecei a achar que realmente era uma inútil diante do instrumento. Se não fosse por minha mãe e por algumas pessoas especiais que apareceram em minha vida, como esse professor de piano que mencionei anteriormente e outras pessoas, teria desistido de fazer música.

Depois de muita luta, consegui superar tais dificuldades, mas como já foi exposto, se não fosse por determinadas pessoas que num dado momento resolveram acreditar que seria possível, não estaria aqui hoje escrevendo essa matéria.

Felizmente, consegui concretizar o que queria, mas constantemente penso na enorme quantidade de pessoas que não conseguem atingir seus objetivos por causa do preconceito de outras, por que não se encaixam em determinados padrões ou simplesmente porque são diferentes. Como diz Miller: "Quando será que a sociedade vai atingir o ponto no qual ‘diferente’ não significa ‘errado’?"

Portanto, essa série de matérias que se inicia hoje tem como propósito abordar como é o deficiente físico diante da aprendizagem musical aqui no Brasil, em especial em São Paulo. Neste sentido, cabe nessa série traçarmos um "diagnóstico" das escolas de música de São Paulo, no que se refere ao preparo em receber um deficiente: acessibilidade, adaptações arquitetônicas, materiais pedagógicos, formação do professor. Estes serão alguns dos assuntos tratados nesse espaço cedido pela Rede SACI.

Queremos com isso mostrar que a falta de habilidade física por um determinado motivo pode realmente dificultar a aprendizagem musical ou performance instrumental de alguém. Entretanto o maior agravante é a falta de professores especializados ou que pelo menos tenham boa vontade e a falta de adaptações pedagógicas e arquitetônicas.

Então, a partir de hoje, estarei expondo os pormenores em relação a esse assunto, sempre baseando-me em dados concretos e em experiências de diversas pessoas que assim como eu driblaram tais dificuldades e hoje usufruem de uma vida musical plena.

* Viviane Louro é formada em Música pela Faculdade de Artes Alcântara Machado (FAAM) e atualmente cursa mestrado em Educação Musical na Universidade Estadual de São Paulo (Unesp). Nas próximas semanas, ela escreverá uma série de matéria abordando o tema "Música e Deficiência" . Perguntas podem ser enviadas pelos e-mails atende@saci.listas.saci.org.br (Rede SACI) ou viviane_louro@uol.com.br (Viviane). As perguntas serão respondidas na última matéria da série.

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