A integração do aluno com deficiência na Rede de Ensino Cap.3

Capítulo 3 - Com os pés no cotidiano

Começa o período da tarde. A professora entra na sala. Bagunça. Várias crianças falam ao mesmo tempo. Cadernos voam. Um aluno bate com a carteira no chão. A professora grita: "Vamos fazer silêncio, gente!". Ruidosamente, os alunos tomam seus lugares. No meio da baderna, a professora nota que apenas duas crianças permaneceram sentadas e quietas desde que ela entrou na sala. A professora pede silêncio novamente. Dá uma bronca. Manda que peguem o caderno. Alguém diz "Fessora" e começa a contar um episódio qualquer acontecido em sua casa. Ela se esforça para demonstrar interesse. Faz perguntas. Ao mesmo tempo, outro aluno também quer contar uma história. A professora percebe que ele tem dificuldade para encadear as idéias de seu relato. Ela, meio atordoada, tenta dar atenção a ambos. Olha o relógio. Quase quinze minutos da aula já se foram. Vira-se para a classe e pergunta quem não fez a tarefa. A gritaria é geral: "Eu fiz, eu fiz, eu fiz, fessora". Cadernos surgem de todos os lados. Eles são quase esfregados em seu rosto. "Vê o meu, vê o meu!"

Essa história com certeza se parece muito com as cenas cotidianas de uma sala de aula. A professora percebe que seus alunos exigem que ela atue de formas diversas para atender necessidades diferentes. Essas necessidades afetam a professora, e seus alunos são afetados por sua atuação. E é por isso que nosso olhar precisa estar bidirecionado. Precisamos perceber essa comunicação de mão dupla, entre aluno e professor. Tudo o que acontece com o aluno também nos afeta e vice-versa. É importante ter consciência de que a atuação dos alunos é uma decorrência da nossa própria atuação. Quando esse fato não é percebido, nossa tendência é considerar o espírito baderneiro de uns e o isolamento de outros como algo cuja origem está exclusivamente fora da classe.

A irritação, a impaciência, o desgosto e o estresse são o resultado da não
compreensão e da má administração do processo ensino-aprendizagem.
Olhando reflexiva e bidirecionalmente, podemos nos perguntar o que sente nosso aluno em função daquilo que ele percebe em nós? Quais os efeitos dessa indagação nas nossas ações e nas ações dos alunos, em nossa relação de sala de aula?

Essas perguntas são básicas e precisam ser consideradas ao analisarmos o que está acontecendo em uma dada relação entre professor e alunos. As respostas que encontrarmos nos permitirão identificar em que precisamos investir para transformar as relações que estiverem prejudicando o processo
ensino-aprendizage.
No esforço de intervir para transformar, o professor tem duas principais
direções de atuação. A primeira direção leva-o ao desenvolvimento de ações de planejamento e de estruturação de condições psicossociais que favorecem
efetivamente o processo de ensino-aprendizagem. A segunda direção vai
encaminhá-lo no sentido de conhecer e aplicar adequadamente as ações
didático-pedagógicas propriamente ditas.

Estaremos, aqui, tratando da primeira. Consideramos as ações de planejamento e de estruturação de condições psicossociais como pré-condição para o processo ensino-aprendizagem, pois é por meio delas que lidamos com aquilo que se constitui no "ambiente" no qual manifestam-se as necessidades acadêmicas de nossos alunos.

Compreendendo o contexto

É fundamental conhecer nossos alunos e refletir sempre sobre as relações
interpessoais que ocorrem na classe (professor x alunos e alunos x alunos). É normal, em todo agrupamento humano, haver pessoas com quem conseguimos estabelecer laços de empatia e outras com as quais o relacionamento é mais difícil. É freqüente também que tentemos nos livrar de quem nos incomoda. As pessoas muito diferentes de nós ou que não correspondem às nossas expectativas são geralmente os alvos desse processo de exclusão.
As diferenças entre as crianças não são, em geral, respeitadas nem nas famílias, onde os pais costumam estabelecer comparações entre os filhos, nem no sistema educacional, onde os programas e estratégias são rígidos, preestabelecidos.

Espera-se que o aluno seja capaz de aprender o que o professor lhe transmite, ao invés de receber instrumentos para construir o seu próprio conhecimento, de acordo com suas possibilidades de aprendizagem. As crianças que apresentam dificuldades de aprendizagem acumulam repetências, não conseguem se alfabetizar, acabam abandonando a escola ou sendo rotuladas de deficientes e encaminhadas para classes especiais.

Já as crianças com alguma deficiência mais evidente (física/motora, sensorial e outras) são segregadas em instituições especializadas, perdendo a chance de conviver e participar da sociedade em geral. Em ambos os casos as crianças recebem um rótulo do qual dificilmente conseguirão se livrar. Contudo, embora a tendência do sistema educacional seja excluir aqueles que não estão adequados às expectativas da escola, o professor pode romper com esse modelo de educação. O primeiro passo é deixar de classificar e rotular, negando-se a ordenar e explicar o mundo pela mera atribuição de nomes, "diagnósticos" que só servem para justificar "cientificamente" a exclusão realizada pela escola. A simples atribuição de um "diagnóstico" não ajuda compreender a complexidade de um indivíduo, quer seja isoladamente ou em relação ao grupo. E isto é ainda mais verdadeiro se considerarmos que estamos falando de um grupo pertencente a uma instituição normatizada e normatizadora como é a escola. Para iniciar um processo de mudança de filosofia no sistema educacional precisamos:


  • Ver antes o aluno e depois suas dificuldades, avaliar seus aspectos
    positivos, e não só os negativos. O aluno é muito mais do que aparenta ser
    na escola. Ele freqüenta outros ambientes e é sempre esclarecedor saber como ele é fora da classe.

  • Verificar a origem do aluno, como é sua família e se ele apresenta problemas também no lar. É importante indagar sobre as vivências escolares dos pais e que valor dão à escola. Devemos tomar cuidado ao abordá-los, falar amistosamente, sem julgá-los nem culpá-los pelos problemas apresentados pelo aluno. É importante envolver-se e também envolvê-los para que participem desse processo.

  • Observar as dificuldades e os comportamentos inadequados e descobrir como eles são desencadeados.

  • Identificar as causas das dificuldades de nossos alunos, observando-os no cotidiano da sala de aula, ao longo do tempo. - Conversar com familiares,
    trocar idéias com os demais colegas.

  • Consultar outros profissionais que podem ajudar a compreender nossos dados de observação do cotidiano em classe e propor dicas de procedimento.
    Criar situações em classe.

Considerar o comportamento do aluno em relação ao grupo maior (aluno muito tímido, por exemplo, pode se intimidar ainda mais num grupo muito ativo, por exemplo.) Refletir, nesse processo de investigação, se o incômodo que sentimos em relação às falhas do nosso aluno não é causado pelo fato de ele apresentar problemas que percebemos em nós mesmos e que não aceitamos. É preciso deixar claro que o diagnóstico de uma doença ou deficiência não deve nunca ser usado para impor um rótulo a um aluno. O diagnóstico serve para identificar as reais capacidades e dificuldades do aluno, para que o professor possa auxiliá-lo em sua adequação na escola. Esse processo diagnóstico tem início na própria sala de aula, com dados colhidos pelo professor. O encaminhamento a profissionais de outras áreas não nos isenta da responsabilidade de educadores desse aluno.

A família, primeiro núcleo do qual a criança faz parte, e a escola, extensão
dessa família, constituem os espaços onde o aluno vive a maior parte do seu
tempo. As pessoas com as quais os alunos convivem são aquelas que melhor os conhecem. Portanto, a opinião dessas pessoas é fundamental para se compreender esse aluno.

Aprendendo a conviver com as diferenças

A convivência torna-se insuportável quando somos obrigados a partilhar nosso cotidiano com alguém que nos irrita ou nos agride constantemente. O desconforto também existe quando somos nós que irritamos ou agredimos outra pessoa com freqüência. Também não é bom conviver com alguém que nos ignora, ou que fazemos sempre questão de ignorar,É muito importante identificar o motivo da agressão ou da irritarão. Os professores assumem, diante dos alunos, papel de modelos. As visões de homem e de sociedade que o aluno construirá, assim como suas vivências sociais, serão fortemente influenciadas pelos relacionamentos desenvolvidos na escola, na qual
a figura do professor é sem dúvida a mais destacada.

Existem alunos cujas características nos afetam emocionalmente e, por Isso, às vezes fica difícil lidar profissionalmente com esse problema, No entanto, por isso mesmo, é fundamental buscar a causa desses comportamentos e adotar os procedimentos mais apropriados para atender às necessidades do nosso aluno, quer seja intervindo diretamente ou solicitando ajuda de pessoas especializadas.

Vamos Ver Alguns Exemplos

No mundo da lua


Nádia leciona numa escola pública para uma classe de segunda série.

O aluno Paulo Roberto causa preocupação. Ele tem aparência boa, é bem-comportado e parece vir de uma família bem-estruturada. Pelo menos é essa a impressão que Nádia tem quando o vê à porta da escola com a mãe, uma moça tranqüila, simpática e afetiva com ele e com o outro filho menor, que costuma acompanhá-los. Paulo Roberto presta atenção às aulas, mas, às vezes, ele parece desligado. A professora o chama e ele não responde. De repente, parece voltar à r realidade e age como se nada houvesse. Nádia está muito intrigada com o comportamento de Paulo Roberto.

Alunos desligados e distraídos são aqueles que parecem viver no "mundo da lua".

Esquecem as coisas, são dispersivos. Muitas vezes, ficam entretidos com uma mosca que passa voando, o movimento dos galhos de uma árvore visível pela janela etc. Este tipo de comportamento pode ser provocado por crises de ausência, que podem ser rápidas e passarem despercebidas, causadas por fatores orgânicos de origem neurológica. A causa do "desligamento" pode ser uma diminuição na audição ou visão, que, às vezes, pode ser difícil de ser detectada, mas que dificulta a chegada de estímulos ambientais ao aluno. Embora inteligentes, os alunos que apresentam essas características têm dificuldades para responder aos estímulos relevantes no contexto da aprendizagem.

Há casos de alunos mais sensíveis que, para fugir de realidades duras e
sofridas, refugiam-se no devaneio e na fantasia, dando a impressão de
desligamento ou distração. Na verdade, trata-se de um mecanismo de defesa.

O que podemos fazer para auxiliar esses alunos?Se o problema for de origem orgânica, urge encaminhá-los para profissionais habilitados (neurologistas, oftalmologistas, otorrinolaringologistas) para uma avaliação e tratamento adequado. Se a dificuldade tiver fundo emocional, é importante ouvir o aluno, oferecer apoio e amizade e, se possível, contatar a família e encaminhá-lo a algum recurso da comunidade que possa atender às suas necessidades.

Algumas estratégias podem ser utilizadas em sala de aula para que o aluno esteja mais propenso a prestar atenção, tais como:Pedir-lhe que se sente em local onde possa enxergar melhor a lousa. Além de ver e ouvir bem o professor nesse local, é importante que os estímulos alheios à aprendizagem tenham menor interferência.

Dar-lhe instruções de forma clara e passo-a-passo, certificando-se de que as informações foram bem-compreendidas. Ter a certeza de que o nível de dificuldade da tarefa solicitada seja condizente com o nível de desenvolvimento e conhecimento do aluno.

Nada Importa

Na primeira semana de aula, Gilda, professora com grande experiência profissional, percebeu que um de seus alunos era muito diferente. Apesar de seus oito anos, Jair era um menino franzino, pálido, com semblante triste, só falava quando muito solicitado e parecia não ter vontade de fazer nada. Mantinha-se sentado, quietinho, sem ânimo. No recreio não participava das brincadeiras, ficava de cócoras num canto, observando os outros e passou a ser chamado de "lesma" e 'tartaruga".
Alunos apáticos parecem não se interessar pelo que acontece no ambiente. A
sensação que nos causam é a de cansaço, tristeza, depressão. Em geral são esses alunos que costumamos considerar, em classe, como "bonzinhos", pois não incomodam. Mas, aí está um grande perigo: eles não incomodam, mas também não aprendem!

Esta apatia pode ser fruto de fatores orgânicos como a desnutrição, a subnutrição, a verminose e a falta de estímulos na primeira infância. Daí a
importância dos programas de suplementação alimentar ou de alimentação
alternativa junto às populações mais carentes.
Se for transitória na vida da criança, a apatia pode ser causada por fatores orgânicos que se tratados podem ser minorados. Mas a apatia também pode ser resultado de fatores sócio-emocionais, como a falta de vínculos afetivos na primeira infância, que causaram prejuízo ao seu desenvolvimento biopsicossocial.

Um dos estudos mais significativos sobre os efeitos danosos da carência afetiva é a experiência feita por Spltz com bebês institucionalizados. Por terem sido privados de vínculos afetivos, os bebês recusavam-se a comer e acabavam morrendo de inanição e apatia.

Pode, ainda, haver predisposição genética. Nesse caso, o comportamento de apatia aparece diante de um fator ambientar desagradável, como agressividade excessiva dos pais ou professores, disciplinas punitivas, discórdia marital e rejeição na família ou na escola.
É importante estarmos atentos a esses alunos, mantendo diálogo constante,
chamando-os à participação e elogiando qualquer iniciativa, por menor que seja.

Também podemos solicitar o auxílio de outros alunos da classe, para que se
chequem a ele e peçam a sua participação em jogos e brincadeiras. O tratamento das causas orgânicas e o estabelecimento de vínculos de afeto e confiança entre professor e aluno podem minorar bastante a dificuldade.

No canto da sala

Maria Lúcia tem oito anos e está na segunda série do primeiro Grau. Na primeira série, sentava-se na frente e, apesar de certas dificuldades, conseguiu se alfabetizar Era uma criança tranqüila, que procurava se adequar ao grupo. Como cresceu muito, este ano passou a sentar-se no fundo da sala. O seu rendimento caiu e ela passou a se isolar Quase não participa das brincadeiras no recreio, parece querer passar desapercebida. Rita, a professora, começou a perceber que Maria Lúcia sã responde quando ela a chama em voz alta ou quando está mais próxima a ela.

Conversando com a mãe, Rita soube que Maria Lúcia havia sido um bebê muito doente, com infecções de ouvido constantes. A mãe era solteira, trabalhava para sustentar a si mesma e a filha, e não tinha muita informação, nem condição de cuidar da menina.

Qual será a causa da dificuldade de Maria Lúcia?

A criança que tende ao Isolamento, que prefere se manter afastada de grupos, com dificuldades para se relacionar e parecendo temer a reação dos outros a sua presença, pode ser portadora de algum problema emocional. A criança muito reprimida e pouco estimulada desde o nascimento, ou até mesmo rejeitada, pode-se sentir insegura, com uma auto-desvalorização muito grande. Por isso prefere isolar-se quando em presença de um grupo maior.
Mas esse comportamento também pode surgir quando o aluno não escuta normalmente e por isso apresenta dificuldades para falar e se desenvolver bem. Também uma alteração do desenvolvimento, como o distúrbio autista (no qual o isolamento aparece como apenas um dos sinais), pode ser a causa do distanciamento do aluno.

Nesses casos, é preciso observar se ele tem preferência por algum colega de
classe com quem consiga estabelecer laços de confiança e amizade. Esse amigo pode servir de intermediário entre ele e os outros. É importante fazer o aluno sentir-se aceito para que desenvolva segurança e confiança. As tarefas propostas a ele devem ser sempre adequadas ao seu nível de conhecimento e de realização, para que não se sinta ainda mais frustrado. As instruções devem ser dadas de forma clara e simples, passo a passo, dando a ele tempo para refletir e absorver o que está sendo dito. Também é preciso observar as condutas mais positivas do aluno, ou seja, os momentos em que ele se encontra mais disponível para ouvir, ser ouvido e ajudado, aproveitando-os para estimulá-lo à participação.

Falando "elado"

Fabiana é professora de uma escola pública estadual Ela costuma dar carona para seu vizinho João, de oito anos, que freqüenta a mesma escola, embora não seja seu aluno. João era filho único, muito mimado e superprotegido pelos pais. A mãe tinha dificuldade para engravidar outra vez. Fez vários tratamentos e, quando já havia desistido de ter outros filhos, engravidou e deu à luz uma linda menina.

João tem demonstrado muito ciúme e agora deu para falar errado, de forma
infantilizada, o que vem prejudicando o seu rendimento escolar e tem tomado João alvo de gozação para os colegas.
A fala é uma das formas pelas quais o ser humano se expressa e estabelece
relações com aqueles que o cercam. É muito freqüente encontrarmos crianças em idade escolar com distúrbios de faia prejudiciais ao seu rendimento. Alterações como trocas de letras, gagueira, mudez, entre outras, podem ter causas variadas e, em muitos casos, estas se apresentam de forma inter-relacionada. A maioria dos casos (cerca de setenta e cinco por cento) pode ser devido a fatores orgânicos como deficiência auditiva, mental (por Síndrome de Down e outras) e alterações neurológicas (provocadas por meningites; encefalites; problemas durante o período de gestação, como a rubéola; traumas de parto e outros). A criança convulsiva também pode vir a apresentar distúrbios da linguagem.

Com relação ao ambiente, a interação da criança com as pessoas que a cercam, principalmente a mãe ou pessoa que cuida dela, é de extrema importância para o desenvolvimento da linguagem. É Muito freqüente o adulto não falar com a criança, porque acha que ela não entende. É comum adultos falarem de forma infantilizada, inadequada e errada, trazendo com isso prejuízos à criança, Também podemos receber em classe alunos vindos de outros locais, utilizando uma linguagem diferente da nossa (regionalismos).
Dificuldades na fala podem aparecer em crianças não desejadas; em crianças que não correspondem às expectativas dos pais; e em crianças mais sensíveis, que se sentem rejeitadas após a vinda de um irmão ou a separação dos pais. Esses distúrbios são freqüentes em crianças que vêm de lares muito rígidos, nos quais têm seus sentimentos recalcados etc. A gagueira, por exemplo, pode ser é produto dessas situações citadas.

O que fazer para ajudar esses alunos a superar sua dificuldade?

Em caso de perda auditiva, alguns sinais dessa limitação deveriam ter sido percebidos anteriormente, principalmente na fase em que a criança deveria ter começado a falar. E esta informação deve ser obtida junto aos pais ou responsáveis. Se for o caso, recomenda-se o encaminhamento para exames especializados que permitirão verificar o grau de surdez e se o aluno se beneficiará ou não de um aparelho de amplificação sonora.

Em se tratando de trocas e omissões de letras, é recomendável uma avaliação
fonoaudiológica. Além disso, em sala de aula ou em casa, é importante não
repetir a faia errada da criança mas, isto sim, falar sempre de forma correta. É interessante incentivar o aluno a falar frases simples para descrever suas atividades e sentimentos. Demonstre satisfação quando ele tentar lhe comunicar algo e nunca faça exigências ou imponha castigos quando falar errado. Deve-se estimular a verbalização do aluno, por meio de dramatizações e brincadeiras verbais que lhe propiciarão maiores oportunidades de perceber e adquirir o significado da linguagem.

"Meio esquisito"

Ricardo parece ser um menino normal, muito bonito, bem arrumado. No primeiro dia de aula, chegou de mãos dadas com a mãe. Na hora de separar-se dela, resistiu e chorou muito. Maria José, a professora, pediu que a mãe entrasse junto com ele, para que o menino fosse acostumando-se com a situação e passasse a sentir-se mais seguro. Ao final da primeira semana, ele já permanecia na escola sem a mãe e parecia ter incorporado a rotina diária. Mas falava pouco, palavras sem sentido aparente e sem relação com o que estava acontecendo. Apresentava tiques, comportamentos repetidos como abrir e fechar o estojo, fazer girar a borracha na carteira. Às vezes, parecia alheio, não se relacionava com as outras crianças e muito pouco com ela.

Como ajudar Ricardo?

Em sala de aula, é importante que o professor tente estabelecer uma relação verdadeira com o aluno, falando claramente o que pensa e sente em relação às suas atitudes. O professor deve dizer-lhe porque considera aquele comportamento "inconveniente" e prejudicial ele.

É preciso observar e refletir sobre as dificuldades do aluno, e descobrir formas de aproximação. Pode ser útil verificar se o aluno tem preferência por alguém da classe e solicitar a essa criança que sirva de intermediária entre o colega e o mundo que o cerca. É importante traçar os limites de forma bem clara, para que o aluno saiba exatamente o que pode, o que não pode às vezes, e o que não pode nunca fazer.

Aproveitar os momentos (em geral de curta duração) em que o aluno está mais
disponível a ouvir. Então, é interessante propor tarefas simples e de execução rápida. Quando apresentar comportamentos repetitivos, o melhor é tirá-lo da situação, oferecendo-lhe algum tipo de atividade. Elogiar sempre que o aluno apresentar atitudes adequadas.

Ele chuta e arrebenta!

Paulo é o sexto filho de uma família de baixo poder aquisitivo. A mãe já tinha quarenta anos quando engravidou dele e sua gestação foi muito rejeitada. Além das dificuldades econômicas, o marido começou a beber e a tomar-se agressivo com ela e com os filhos. Paulo cresceu nesse ambiente violento. Quando entrou na escola, sua professora teve muita dificuldade para lidar com ele, pois por qualquer motivo ele agredia física e verbalmente os colegas. Chegou a ser suspenso por duas vezes e agora, caso provoque outra briga, será expulso da escola.

Como ajudar Paulo?

Aluno agressivo é aquele que vivencia sentimentos de raiva, que ele dirige contra pessoas, coisas (heteroagressividade) e, às vezes, contra si mesma (auto-agressividade). Ele pode expressar esses sentimentos através de
comportamentos como morder, cuspir, chutar, bater, destruir etc.

A agressividade é um dos componentes do desenvolvimento afetivo humano, e pode ser uma forma de defesa. A pessoa que não possui agressividade também sofre por não saber se defender quando necessário. A agressividade só deve ser considerada patológica quando constituir-se na única forma de comportamento do aluno.

Quando a agressividade é causada por fatores orgânicos, um tratamento
medicamentoso pode minorar os sintomas, mas nem sempre soluciona o problema.
Mas a agressividade pode ter sua origem em causas ambientas, isto é, em famílias muito rígidas e controladoras, nas quais a criança ou jovem nada pode, ou então em famílias muito permissivas, nas quais tudo é permitido.
Quando os pais têm pouca afetividade e mantêm um relacionamento agressivo entre si e/ou com os filhos, esse comportamento acaba servindo como um exemplo inadequado.

O ambiente social de onde a criança provém também pode apresentar um grau de agressividade maior do que aquele sentido como normal pelo professor e pelos outros alunos.

Em sala de aula, geralmente os alunos agressivos tornam-se líderes negativos ou são temidos e evitados. É importante que o professor observe como e quando surgem as situações agressivas e procure, por meio do diálogo e, em particular, descobrir suas finalidades. Se o objetivo for chamar a atenção do professor, esse deve dar-lhe uma responsabilidade que o aluno julgue importante. Nos momentos de agressão, é preciso contê-lo fisicamente, falando em voz baixa e tentando acalmá-lo, chamando-o à razão. Converse sempre com os colegas agredidos, procurando saber o motivo da briga ou discussão, mostrando a co-responsabilidade na situação (ação x reação). Solicite a presença de familiares para verificar se o aluno apresenta este tipo de conduta no lar e, de comum acordo, pode-se estabelecer uma estratégia única de ação.


"Ele não aprende, não adianta"

José morava na roça, em local isolado, com os pais e um irmão mais novo. O pai era muito bravo e rígido com a mulher e os filhos, e todos o temiam. Quando José fez sete anos, a família veio morar em São Paulo e ele foi matriculado numa escola perto de sua casa. Sentiu muita dificuldade para se acostumar na cidade grande e na escola. Tinha medo de tudo e não conseguia aprender nada. Após repetir dois anos a primeira série, foi encaminhado para a Classe Especial.

Regina, sua professora, era tranqüila, afetiva e conversava muito com José.
Começou a perceber que ele tinha condições de freqüentar a classe comum e
começou a incentivá-lo. Após dois anos, Regina conversou com o diretor, dizendo que José estava apto a voltar para a classe comum. José resistia, por temer fracassar outra vez, mas acabou aceitando e continua seus estudos normalmente.

A criança pode ter dificuldades para aprender por vários motivos. Às vezes, a dificuldade pode ter origem orgânica e estudos em neurologia infantil têm
sugerido alterações em regiões do cérebro. Também pode acontecer de a criança ter uma dislexia (problema de coordenação entre pensamento e ação gerando problemas na alfabetização) ou um leve déficit sensorial, que passe
despercebido. Mas, a causa pode ser de fundo emocional, quando a criança provém de família problemática, apresentando carências afetivas e de estimulação. Essas crianças, além das dificuldades de aprendizagem, podem também necessitar de maior tempo para se adaptar ao novo ambiente.
É preciso que o professor esteja atento, ainda, às diferenças culturais,
regionais e de classe social, que muitas vezes implicam em vivência e valores diferentes daqueles apresentados por ele mesmo e pelos outros alunos.

A pessoa do professor, a forma pela qual ele se relaciona com seus alunos, também pode auxiliar ou prejudicar o processo de aprendizagem, ou seja, caso não haja compreensão e empatia entre professor e aluno, o aprendizado pode se tornar mais difícil. É mais fácil aprender quando o afeto permeia o processo.

Outro fator causal da dificuldade de aprendizagem são os procedimentos
pedagógicos, que nem sempre atendem às necessidades individuais dos alunos. O professor, em nossa realidade, acostuma-se a repassar informações prontas aos alunos. Segundo Rogers (in Vayer),- o adulto não confia na capacidade da criança de aprender por si; o mestre é o detentor do saber, o aluno é o receptáculo, aquele que obedece.

O ideal é o professor funcionar como mediador, ensinando os alunos a pensar,
colher dados e construir o seu próprio conhecimento. Nesse papel, o professor deve se permitir a liberdade de criar e experimentar várias estratégias, de acordo com cada criança, independentemente das teorias ou normas que lhe tenham sido impostas.

É importante que o professor detecte as áreas de maior dificuldade do aluno e que lance mão de várias estratégias, partindo de aspectos mais simples que ele já domina. Permitir que traga suas dúvidas, incentivando-o a encontrar as respostas adequadas, sem resolvê-las pelo aluno. Falar em linguagem simples, com frases curtas e poucas ordens de cada vez; dividir tarefas mais complicadas em etapas; incentivar trabalhos em grupo nos quais os alunos com maior facilidade de compreensão auxiliam o colega.

Às vezes, os alunos não aprenderam a se organizar para o trabalho, o que resulta em perda de tempo, prejuízo para a construção dos conhecimentos propostos, frustração e desmotivação. É importante que o professor converse com os alunos sobre as estratégias que pensa adotar. É essencial explicar e demonstrar ao aluno o que é pré-requisito, e como isso é importante para a realização de tarefas ou para a compreensão de informações. Crie um clima de compreensão e aceitação na classe para que o aluno com maior dificuldade para aprender possa evoluir dentro de suas possibilidades.

Um dia de furacão

Maria José assumiu a classe de primeiro ano. Iniciou o dia com uma brincadeira em que os alunos e ela mesma apresentavam-se ao grupo. Após a brincadeira, percebeu que André - que ao se apresentar falou algumas palavras erradas - não parava quieto em seu lugar. Levantava a toda hora, ia bisbilhotar nas mesas dos colegas, derrubou o seu estojo algumas vezes. Quando ela lhe pedia para se sentar, ele ficava em seu lugar por breves instantes, e logo depois, como que movido por uma mola, reiniciava suas ações inadequadas. No recreio, percebeu que os colegas de classe gozavam dele e houve até um início de briga, que ela oportunamente presenciou e apartou. Maria José chegou ao final do período exausta e irritada e percebeu que as outras crianças já haviam apelidado André de "furacão". O que fazer?

A hiperatividade, muitas vezes, nos provoca intensa irritação, especialmente se não sabemos como intervir porque desconhecemos suas causas.

Existem alunos que se movimentam constantemente. Mexem em tudo e com todos, perturbam o ambiente, não aceitam interferências e, para eles, parece que não existem limites. Não têm noção de perigo, e quando sofrem agressões, não as interpretam como tal. Tornam-se agressivos quando provocados ou quando são contidos à força. Seu comportamento é impulsivo e a sensação que se tem diante dessas crianças é a de que elas teriam perdido o controle sobre si mesmas.

Elas podem, ainda, aparentar uma Inabilidade motora, sendo consideradas pelos pais como desastradas ou desajeitadas. A fala pode aparecer tardia e lentamente, com trocas, omissões e distorções fonêmicas que, se não tratadas precocemente, podem acarretar dificuldades ou alterações no processo de alfabetização da criança.

Em geral, essas crianças têm mau aproveitamento escolar devido à falta de
concentração. É importante verificar se ela tem o mesmo comportamento em casa, como é o comportamento dos outros elementos da família em relação a ela, se há punição, rejeição, rótulos, apelidos, etc.
Esse comportamento está mais ligado a fatores constitucionais e orgânicos.

Geralmente a inteligência está preservada e, não raro, está acima da média. A hiperatividade não é uma doença, mas um estado ou condição.

Algumas síndromes e alterações metabólicas e neurológicas podem causar
hiperatividade e, nesses casos, pode haver um comprometimento da inteligência.
Quando houver suspeita de causa neurológica, é interessante contatar a família e solicitar uma consulta com o neurologista. Na maioria dos casos, entretanto, a excessiva atividade não produtiva do aluno é resultado das condições existentes no próprio contexto escolar.

É atenção o que ele busca? Que tal, então, dar-lhe atenção sistematicamente, nos poucos momentos em que ele se envolve produtivamente com a atividade esperada?

Já conversou com ele sobre isso? Por que não fazê-lo? (É claro que nunca aos
berros, em frente à classe. Mas, talvez, em um bate-papo individual, com calma, atenciosa e firmemente). Já experimentou dar-lhe alguma responsabilidade especial que ele considere importante?

Além disso, mudar seu lugar na sala para limitar a influência de estímulos alheios à aprendizagem pode ser uma providência auxiliar, de grande importância.
A utilização de exercícios de relaxamento, no início de cada período, também
pode ser útil, principalmente para diminuir a excitação após as brincadeiras do recreio. Outras providências ainda podem ser tentadas. O importante é observar o contexto e buscar sempre formas criativas e viáveis para a situação em que nos encontramos.

Eu! Eu! Eu!

Jane é professora há quatro anos e adora o que faz. Costuma assumir a primeira série porque é paciente, afetiva e consegue uma boa adaptação à escola da maioria de seus alunos. Este ano, porém, recebeu uma criança que a está preocupando. Seu nome é Angélica e seu comportamento vem prejudicando a dinâmica da classe. Quando a professora pede auxílio, ela é sempre a primeira a se oferecer Quando algum aluno não consegue responder a alguma questão, ela se apressa em fazê-lo sem que lhe tenha sido solicitado. Na hora do recreio, quer sempre impor as regras nas brincadeiras. Na saída, fica abraçando e beijando a professora efusivamente. Jane está ficando irritada com Angélica e não sabe que atitude tomar.

Ao contrário de crianças isoladas e apáticas, a criança que gosta de aparecer dificilmente passa despercebida, pois desde os primeiros dias do ano letivo está sempre fazendo algo para chamar a atenção do professor e dos colegas. Suas atitudes, em geral inoportunas, tanto podem ser positivas como negativas, pois o que lhe interessa é ser o centro das atenções. Essa criança solicita constantemente a ajuda do professor para a realização de qualquer tarefa, e às vezes pode apresentar comportamento de aproximação com os outros de forma viscosa, pegajosa, que causa irritação nos que a cercam.

Este tipo de comportamento pode ter por origem causas orgânicas, como em algumas alterações neurológicas e metabólicas. Um exemplo é a epilepsia. Mas, esse comportamento pode surgir também devido a causas afetivo-ambientais, como no caso de crianças com carência afetiva e/ou rejeitadas desde o nascimento; ou então em crianças muito mimadas e superprotegidas, que não receberam limites em casa.

É preciso conhecer as possíveis razões desse comportamento para uma intervenção bem-sucedida. Na eventualidade de ser o caso de necessidade de atenção, converse sobre isso com a criança, proponha outras formas socialmente mais aceitas para a obtenção dessa atenção. É possível, também, que essa criança não tenha segurança e coragem para realizar tarefas sem a participação de alguém que ela considere mais capaz. Nesse caso, devemos começar com atividades que ela já domine, auxiliando-a a perceber o que está sendo solicitado e os passos que deve percorrer para atingir os objetivos propostos. Caso se mostre insegura, podemos oferecer-lhe ajuda total de início, de forma a garantir êxito na execução da tarefa. A retirada da ajuda deve ser gradativa, sempre assegurando-se de que o aluno percebe e se veja reconhecido em sua autonomia e independência. Dessa forma, estaremos ajudando a criança a construir novos conceitos e a alcançar a independência desejada.

Caro Professor

As sugestões de intervenção aqui mencionadas representam quase nada
diante da multiplicidade de possibilidades que se abre quando
paramos, observamos nosso contexto de atuação e percebemos as
peculiaridades que o caracterizam. São essas peculiaridades que
devem nortear nossa ação. É importante, além da observação e da
reflexão, buscar soluções criativas. Não importa se ninguém ainda
usou determinada estratégia. O importante é que planejemos como agir
em função daquilo que encontramos em nossa realidade. o melhor
parâmetro para avaliação da eficácia de nossa ação, então, é
analisar os seus efeitos, em função dos objetivos a que nos
propusemos alcançar.


Continuação do documento...


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