Em busca das revelações sobre o Alfabeto Manual

TVE Regional
11/08/2004

"Qualquer ato de comunicação constitui uma relação social"

Eric Buyssens

Para a comunidade surda um ato de comunicação não é tão instantâneo e fácil, é preciso esforço para conseguir o básico que é comunicar-se e entender-se mutuamente, por isso que nessa coluna a Libras (Língua Brasileira de Sinais) pede respeito não só para si mas também para o seu companheiro o Alfabeto Manual.

Introduzimos o conceito e a história da língua de sinais e do alfabeto manual na ânsia de estreitarmos nossas relações e com a certeza de que com estas pontes erigidas construímos melhores condições de vida assim como possibilitamos a inclusão.

Para o letrado que não sente dificuldade de expressar e escrever pode parecer desnecessário tanto a Libras como o alfabeto manual, mas a sociedade que conseguir olhar e aprender com todos na sua diversidade sem dúvida é um lugar mais digno e melhor para todos.

Daí porque insistimos em explicar o porque da existência da Libras e a necessidade do alfabeto manual. Devemos diferenciar os aspectos ou formas de expressão que ambas possibilitam: uma é a utilização de sinais/ manual que equivale aos signos gráficos, que chamaremos de alfabeto manual.

No alfabeto manual a língua escrita serve de base e as palavras são digitadas através das mãos (no Brasil só se usa uma mão no uso do alfabeto manual, podendo ser mão direita ou esquerda), já na Libras existe uma codificação contextualizada em torno de símbolos/sinais que resultarão em diálogos interativos lingüístico.

Ambas são meios de comunicação, mas se no alfabeto manual há uma ligação estreita com a aprendizagem da língua escrita, a língua de sinais (Libras) não depende da língua escrita. O que podemos dizer é que o alfabeto manual é um sistema de escritura manual que equivale à grafia espacial. O alfabeto manual não é universal, cada país tem o seu alfabeto manual e a sua língua de sinais.

Passo então a dividir o conceito e a história do surgimento do alfabeto manual contigo, sabendo que a magia do momento se perpetua e que esta troca de experiências engrandece não só o meu mas o nosso conhecimento.

A primeira notícia que se tem do alfabeto manual data dos tempos de Pablo-Bonet (1579 - 1629) ele escreveu um livro em 1620 divulgando o método RAMIREZ, utilizando uma série de figuras, copiadas de MELCHOR DE YEBRA, que representava a posição de uma mão para cada letra e recomendando que não só o surdo aprenda como também seus familiares e amigos. Não usou o k,x,y,z porque não são usados na língua latina.

Em registro temos a mais antiga representação de um alfabeto manual entalhada em um quadro de madeira extraída da obra de Cosmas Rosselius o Thesaurus Artificiosa Memeriae...", Veneza 1579. Mas segundo a história o uso do alfabeto manual era comum na Idade Média em Mosteiros onde era apropriado por escolha religiosa, o voto do silêncio.

Na Educação, Pablo-Bonet acreditava que quando o surdo conhecesse e reproduzisse de forma correta e rapidamente as letras do alfabeto manual poderia começar a ensiná-los com a voz.

O Abade Charles Michael de L’ Epée (1742-1822) junto com outros franceses, SICARD e CLERC que era surdo, começaram a ensinar a língua de sinais por meio gramatical.

L’ Epée era partidário da expressão de palavra por sinais: manualismo.

O alfabeto manual criado por L’ Epée empregava duas mãos, porém era utilizada para ensinar nomes ou termos abstratos. Os demais nomes eram utilizados os sinais da língua de Sinais. Ex: o soldado era expressado por sinais de apresentar a arma; o gato por seus bigodes, etc...

De acordo com o Ministério da Educação no ensino público, há 56 mil crianças surdas matriculadas, isto significa que o uso do alfabeto manual no ambiente escolar tornará natural tanto para ouvintes como para surdos.

Nos anos 60 e 70 um grupo de jovens Surdos se encontravam em pontos combinados da cidade morena. Um dos primeiros locais de encontro foi a rua 14 de Julho esquina com Dom Aquino. Reuniam-se para conversar usando o Alfabeto Manual e Sinais aprendidos no Rio de Janeiro, troca de idéias em uma língua pouco conhecida, tanto para os Surdos como para os ouvintes daquela época. O assunto principal era o dia-a-dia do Surdo, devido não terem acesso à comunicação dialógica em casa. Havia mais troca de informações pessoais do que notícias.

As reuniões eram fechadas somente para Surdos ou familiares ouvintes e os usuários da Língua de Sinais. Neste período estava na liderança o Surdo José Ipiranga de Aquino que trabalhava como vendedor de cartão de Alfabeto Manual, adesivos, chaveiros e outros. Todos os Surdos que passavam por Campo Grande, vindos de outras cidades ou estados, tinham passagem obrigatória em sua residência, quando colhiam mais informações sobre a cidade e o mercado de trabalho para os vendedores de cartão do Alfabeto Manual.

A história desses vendedores de cartão de alfabeto manual é muito interessante, todos nós já deparamos com um. Conversando com um vendedor Surdo, ele me relata que vender alfabeto manual faz parte da Cultura Surda, poderíamos comparar o vendedor de alfabeto manual com o caixeiro viajante. Em sua viagem vai descobrindo novos Surdos e divulgando a Libras, a educação, direitos e contando as novidades das demais localidades. Realiza troca de sinais da Libras entre uma comunidade e outra, fazendo assim valer que a Libras é uma língua viva que há uma interação que deverá ser acompanhada. Quando estes vendedores chegam na Capital sempre procuram o grupo de Surdos em uma Praça Central para compartilhar informações e saber como está as vendas no período.

Naquele período (entre os anos 60 e 70) era proibido o ensino da Língua de Sinais para os ouvintes em forma de curso, ou para pessoas que não faziam parte da comunidade Surda. Hoje estamos capacitando na Câmara Municipal professores da educação infantil de nossa cidade, oferecendo cursos gratuitos de Libras, com instrutores surdos, no CAS. Estamos felizes comemorando a presença da cultura surda na diversidade perante a Política da Inclusão.

PS: Você pode encontrar mais informações no:

CAS/MS - Centro de Apoio ao Surdo/MS fone: 325.6611
e-mail centrodeapoioaosurdo@hotmail.com

CEADA - Escola de Surdos fone: 341.7764
e-mail: sec737@sgi.ms.gov.br

ASSUMS - Associação de Surdos de Mato Grosso do Sul
e-mail: surdosms@yahoo.com.br

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