Dislexia, as muitas faces de um problema de linguagem

Pedagogo Brasil
27/04/2004

É importante aceitar a dislexia como uma dificuldade de linguagem que deve ser tratada por profissionais especializados

Clélia Argolo Estill

-Meu filho foi mal alfabetizado? Ele é disléxico?

-Dislexia é uma dificuldade de aprendizagem?

Problemas de aprendizagem são as múltiplas varetas de um amplo guarda chuva. Dislexia é apenas uma delas, mas muito especial. É mais fácil conceituá-la através do que não é do que defini-la pelo que é. Com toda a certeza não é um problema de inteligência, tampouco uma deficiência visual ou auditiva, muito menos um problema afetivo-emocional. Então o que é ?

Dislexia é uma dificuldade específica de linguagem, que se apresenta na língua escrita. A dislexia vai emergir nos momentos iniciais da aprendizagem da leitura e da escrita, mas já se encontrava subjacente a este processo.

É uma dificuldade específica nos processamentos da linguagem para reconhecer, reproduzir, identificar, associar e ordenar os sons e as formas das letras, organizando-os corretamente. É certamente um modo peculiar de funcionamento dos centros neurológicos de linguagem. É frequente encontrar se outras pessoas com dificuldades semelhantes nas histórias familiares.

Dislexia , não é culpa de ninguém, nasce -se assim. O importante é aceitar a dislexia como uma dificuldade de linguagem que deve ser tratada por profissionais especializados. As escolas podem acolher os alunos com dislexia, sem modificar os seus projetos pedagógicos curriculares. Procedimentos didáticos adequados possibilitam ao aluno vir a desenvolver todas as suas aptidões, que são múltiplas. Vale relembrar que os disléxicos estão em boa companhia junto a Leonardo da Vinci e Tom Cruise, Einstein e Nelson Rockefeller, Hans Christian Andersen e Agatha Christie, entre muitos outros.

O bom desempenho na leitura provém do equilíbrio entre o desenvolvimento das operações da leitura, decodificação e compreensão, interagindo com os estágios de desenvolvimento do pensamento e da linguagem. É necessário não esquecer a importância dos vínculos afetivos estabelecidos com a aprendizagem. Bons ou maus vínculos são preditivos de sucesso ou fracasso, nesta jornada.

O sucesso da operação inicial de leitura, a decodificação, vai depender da habilidade linguística para transformar um sinal escrito, a letra, num sinal sonoro, o som, e vice-versa. Associar letras e sons correspondentes, organizar, sequenciar e encadear esta corrente sonora, é o caminho percorrido para se apreender a palavra escrita. Aqui mora a dificuldade do disléxico. Quanto mais a leitura e escrita, são necessárias na vida escolar, mais a dislexia se revela, sendo confundida, muitas vezes, com problemas gerais de aprendizagem.

As pessoas com dislexia tem dificuldades de aprendizagem, porque tem dificuldades específicas de linguagem, não por dificuldades emocionais, lógico-operatórias ou sócio-culturais. As dificuldades de aprendizagem, presentes na dislexia, são alterações decorrentes das dificuldades específicas no processamento linguístico, que tem a leitura e a escrita como suas ferramentas principais.

O valor da intervenção precoce, no caso de suspeitarmos da presença de fatores disléxicos, fala por si mesma, mas só podemos considerar que alguém é disléxico, após dois anos de vivências leitoras. Antes deste período podemos detectar "dificuldades ou transtornos de leitura", que já necessitam de cuidados especiais, numa postura preventiva.

Há muitos sinais, visíveis nos comportamentos e nos cadernos das crianças, que podem auxiliar aos pais e educadores a identificar precocemente alguns dos sinais preditivos de dislexia. A dislexia pode estar associada à quadros de déficit de atenção (DDA), mas nem todo o déficit de atenção é acompanhado de dislexia. Citamos algumas dificuldades, tais como:

- demora nas aquisições e desenvolvimento da linguagem oral; dificuldades de expressão e compreensão; alterações persistentes na fala;

- copiar e escrever números e letras inadequadamente;

-dificuldade para organizar-se no tempo, reconhecer as horas, dias da semana e meses do ano;

- dificuldades para organizar sequências espaciais e temporais, ordenar as letras do alfabeto, sílabas em palavras longas, seqüências de fatos;

-pouco tempo de atenção nas atividades, ainda que sejam muito interessantes;

-dificuldade em memorizar fatos recentes - números de telefones e recados, por exemplo;

- severas dificuldades para organizar a agenda escolar ou da rotina diária;

-dificuldade em participar de brincadeiras coletivas;

-pouco interesse em livros impressos e escutar histórias;

É preciso ter uma especial atenção com as crianças que gostam de conversar, são curiosas, entendem e falam bem, mas aparentam desinteresse em ler e escrever. Vale a pena, no caso de crianças leitoras, oferecer um mesmo problema matemático, escrito e oral, e comparar as respostas. Frequentemente encontramos respostas diferentes, corretas na questão oral e incorreta na mesma questão escrita.

A mesma criança que parece não saber resolver um problema matemático por escrito, poderá ter um desempenho surpreendente quando o mesmo problema lhe é apresentado oralmente. Esta situação exemplifica como podemos confundir os sinais - a dificuldade não é na aprendizagem da matemática, mas na leitura.

A pessoa com dislexia não mereceria ser atendida na vida escolar através de seus melhores canais de comunicação- a linguagem oral antecedendo a linguagem escrita ? É um caso a pensar.

Mas a dislexia não é privilégio das crianças recém alfabetizadas, ou que estão na 1ª/2ª séries. Há crianças que apesar de todas estas dificuldades, conseguem aprender a ler mas vão carregando a sua dislexia camuflada. Estas crianças, incompreendidas em suas dificuldades, muitas vezes são vistas como desinteressadas, e cobradas com quantias que não têm como pagar. É quando podem surgir as reações de apatia ou revolta.

Sempre nos dão sinais, é só seguir as pistas para melhor compreendê-los:

-dificuldades nas aquisições lingüísticas: dificuldades em reconhecer rimas e aliterações; vocabulário reduzido; construções gramáticais inadequadas, severa dificuldade para entender as palavras pelo seu significado ;

-dificuldade em fazer cópias, trabalhos e agendas incompletas;

-dificuldade na leitura, lê mas não entende o que leu;

-importantes dificuldades de organização sequencial tempo-espacial, seqüências e rotinas diárias;

-dificuldades em matemática, cálculos e desenhos geométricos;

-grande dificuldade para organizar-se em suas tarefas de vida diária;

-especial dificuldade para aprender uma segunda língua;

-confusões de orientação, trabalhar com dicionários e mapas é mais um complicador;

- alterações de comportamento - agressividade, desinterêsse, baixa auto-estima e até mesmo condutas opositivas-desafiadoras.

Enfim, o disléxico não identificado, pode reagir a tantos obstáculos com comportamentos inadequados, que complicam ainda mais a sua vida. Mesmo dando tantas pistas, o disléxico pode não ser reconhecido como tal e chegar à vida adulta carregando frustrações que o impedem de tomar conhecimento de suas habilidades, que certamente são muitas.

Felizmente já existem profissionais que estão atentos aos problemas da dislexia e tentando vir ao encontro desta população desassistida, através de associações, com objetivo de ampliar as pesquisas, estudos e oferecer apoio às famílias, escolas e profissionais que atuam junto à estas pessoas portadoras de dificuldades específicas de linguagem escrita - a dislexia.

No Rio de Janeiro já está funcionando a AND - Associação Nacional de Dislexia, uma associação sem fins lucrativos, constituida por profissionais de fonoaudiologia, psicopedagogia, psicologia, que vêm prestando serviços de diagnóstico diferencial às famílias e escolas da comunidade.

Importante é pensar a dislexia como uma modalidade peculiar de processamento da linguagem, o que vem sendo cada vez mais pesquisado pelas ciências neuro-cognitivas, tendo a linguagem como vetor.

A pessoa com dislexia, ou com fatores disléxicos, mereceria ser examinada e acompanhada por profissionais especializados em linguagem, para que não enham a ser confundidos os sintomas de distúrbios na linguagem com distúrbios de aprendizagem.

Vale lembrar - alguém não é apenas a dificuldade que apresenta, esta é só um detalhe de uma paisagem, rica, complexa e bela.

* Clélia Argolo Estill é fonoaudióloga, psicopedagoga clínica e vice-presidente da AND - Associação Nacional de Dislexia

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